Dois grupos de 70 voluntários comeram todos os dias, por cinco semanas, 125 gramas de carne vermelha sem gordura e não tiveram qualquer alteração significativa nos seus níveis de colesterol, de pressão arterial e mesmo do temido LDL, o “mau colesterol”.  A pesquisa, que confirma recentes estudos da Ásia, dos Estados Unidos e da Escandinávia, foi apresentada ontem (17) no 66º Congresso Brasileiro de Cardiologia, em Porto Alegre, pelo seu coordenador, o cardiologista Iran Castro.

Esse trabalho científico, a mesa-resonda sobre correlação entre a carne vermelha e as doenças cardiovasculares e mais as colocações do professor Kevin Croce, de Harvard, que pronunciou conferência com o tema “Verdades de Mitos sobre a Carne Vermelha”, levam a um reposicionamento dos cardiologistas que, nos anos recentes, tem recomendado a redução drástica da carne vermelha e a sua substituição por carnes brancas e de peixe. Os médicos lembram que, retirado o excesso de gordura, a carne vermelha é excelente fonte de proteína, de ômega-3, vitamina B12, niacina, de zinco e ferro necessários ao organismo.

“O que sabemos agora é que a carne magra, isto é, aquela da qual se retira a gordura visível, as tirinhas brancas, como o contra-filé, por exemplo, não aumenta o risco cardíaco”, explica Iran. O conselho para o leigo é que não é preciso limitar o consumo do filé, da picanha ou mesmo do lombo de porco mas, em compensação, fica praticamente vedado o consumo dos embutidos, salsichas, linguiças e mortadela, que pelo excesso de sal que contém como conservante, aumentam sensivelmente a hipertensão a qual, a longo prazo, leva ao infarto e ao derrame, o AVC.

As carnes mais gordurosas, cupim e costela continuam contra-indicadas e o médico lembra que a carne sem gordura pode ser ingerida, mas frituras, jamais.

PASTO X CONFINAMENTO

A pesquisa coordenada por Iran Castro foi desenvolvida no Instituto Cardiológico do Rio Grande do Sul, em cujo hospital 70 voluntários foram divididos em dois grupos. Um deles comeu diariamente 125 gramas de carne vermelha de gado criado em pasto e o outro grupo comeu a mesma quantidade de carne de gado confinado, isto é, engordado mais rapidamente em estábulos fechados, alimentado com ração.

Num segundo momento houve inversão dos voluntários, os que vinham comendo carne de gado estabulado passaram a ingerir carne de gado criado no pasto e vice-versa. Os resultados, apresentados no Congresso, indicam que o colesterol total de nenhum dos grupos se elevou até o nível de 200, considerado aceitável para pessoas sem maior risco cardíaco. O HDL, ‘colesterol bom’, melhorou um pouco, o LDL ou ‘colesterol ruim’ não sofreu alteração significativa, como também não mudou de forma estatisticamente importante o nível de triglicérides, nem a pressão arterial, nem o nível de sódio e os dois tipos de carne levaram a resultados semelhantes nos voluntários.

ESTUDOS INTERNACIONAIS

Iran Castro explica que o colesterol preocupa desde 1838, quando foi descrito pela primeira vez, e que desde 2005 as sociedades de Cardiologia dos Estados Unidos recomendam a redução do consumo de carne vermelha.

“Recentemente, porém, um estudo asiático que reviu 54 pesquisas, mostrou que a carne magra, com baixa concentração de gordura saturada, não aumenta o colesterol”. Iran explica a “baixa concentração de gordura saturada” como sendo típica da carne bovina brasileira, onde a gordura fica fora do bife, a seu lado e pode ser facilmente eliminada, enquanto o gado americano produz “carne marmorizada”, com filetes de gordura permeando toda a carne.

“A carne brasileira é mais saudável”, diz o médico gaúcho, e em 2009 uma corte britânica com 517 homens e 635 mulheres confirmou o estudo asiático, absolvendo a carne com pouca gordura do “crime” de aumentar o colesterol. Outro estudo de 2010, este da norte-americana Renata Micha, com 56.311 pacientes, chegou a conclusão semelhante, mas mostrou o grande risco da ingestão de embutidos. Agora Kevin Croce, da Universidade de Harvard, fez uma palestra mostrando todos esses dados e praticamente abrindo um novo capítulo na prevenção do infarto através da alimentação.