Foi exumado na tarde de hoje, em Santos (72 km de São Paulo), o corpo do gari Edson Rogério Silva dos Santos, 29, morto a tiros na noite de 15 de maio de 2006, durante a primeira onda de ataques da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) contra as forças de segurança do Estado.

A exumação ocorreu por volta das 14h, no cemitério da Areia Branca, localizado entre Santos e São Vicente (litoral de SP).

“O mais importante é chegarmos ao autor [do assassinato]”, diz Débora Maria da Silva, mãe de Edson. “O Estado é responsável por esses crimes e deve correr atrás dos seus agentes, que os praticaram”, afirma.

Depois da morte do filho, Débora se tornou uma das líderes do movimento independente “Mães de Maio”, entidade que luta por punição contra policiais militares e civis que cometeram excessos durante os ataques do PCC e pela federalização da investigação sobre as mortes ocorridas naquele período.

Entre 12 e 21 de maio de 2006, 493 pessoas morreram por arma de fogo. Em novembro do ano passado, o Tribunal de Justiça condenou o Estado de São Paulo a indenizar em R$ 165 mil os familiares do gari.

Edson foi morto em Santos. No dia anterior ao crime, ele havia participado da festa de aniversário de sua mãe, que ocorria no Dia das Mães.

Projétil

O principal objetivo da exumação é encontrar projéteis alojados na coluna cervical ou no crânio de Edson. Segundo as Mães de Maio, há a suspeita de que a arma utilizada para matar o gari é a mesma que foi apreendida com um policial em Cubatão (litoral de SP).

“É um absurdo o projétil ter sido enterrado junto com o meu filho. O projétil é uma peça-chave da investigação”, afirma Débora, que diz esperar que a exumação não sirva como argumento para se evitar a federalização das investigações.

“Espero que seja uma exumação de verdade, que vai trazer à tona os algozes”, diz. “Meu filho foi enterrado com esse projétil. Agora esse projétil tem de aparecer.”

O movimento Mães de Maio afirma que irá acompanhar os exames cadavérico e de balística com um perito independente.

Assassinatos

Ao esmiuçar os 493 homicídios ocorridos no Estado de 12 a 20 de maio de 2006, o estudo “São Paulo Sob Achaque”, raio-X feito durante quatro anos e oito meses pela ONG Justiça Global e pela Clínica Internacional de Direitos Humanos da Faculdade de Direito de Harvard, viu “indícios da participação de policiais em 122 execuções”, além de discrepância na elucidação desses casos em relação aos que vitimaram 43 agentes públicos.

De acordo com o estudo, os ataques do PCC contra as forças de segurança que pararam São Paulo foram motivados pela corrupção policial contra membros da facção, falta de integração dos aparatos repressivos e a transferência que uniu 765 chefes do PCC, às vésperas do Dia das Mães de 2006, numa prisão do interior paulista.

Na decisão do desembargador Magalhães Couto, que condenou o Estado a indenizar os familiares do gari, consta a seguinte conclusão: “A morte do filho da autora [Débora Silva] teria ocorrido entre os dias 12 e 21 de maio de 2006, justamente o período no qual se deu uma série de atentados promovidos por facção criminosa em represália à ação do Estado, que teria transferido e colocado em regime disciplinar diferenciado alguns de seus líderes. Cessado os ataques alguns dias após (…) a agora violenta, desarrazoada e indiscriminada e, portanto ilegal reação do Estado não tardou”.

“Muitas dessas mortes decorreram da reação defensiva legítima de agentes públicos, mas outras tantas apontam para atuação de grupos de extermínio e de policiais absolutamente fora de controle e comando, com nítido caráter de represália indiscriminada, notadamente, em face da população mais pobre e que habita as periferias das grandes cidades paulistas”, continuou o desembargador.