O jornal ?Correio Braziliense?, de Brasília, confirmou na primeira página da edição de hoje o afastamento de seu presidente, Paulo Cabral de Araújo, pelo condomínio dos Diários Associados, e a demissão do jornalista Ricardo Noblat do cargo de diretor de Redação.

Noblat sai em solidariedade a Cabral, que teve sua gestão reprovada por 13 dos 19 integrantes da assembléia, da qual ele esperava obter a expulsão do condomínio de seu principal rival no jornal, o vice-presidente Ari Cunha. As mudanças estão marcadas para o dia 1.º, segundo a nota publicada hoje pelo jornal.

        Os desentendimentos internos entre Noblat, Cabral e Ari Cunha tiveram início quando o jornal imprimiu uma linha editorial de oposição ao governo do Distrito Federal, no início da gestão do governador Joaquim Roriz (PMDB), que tenta a reeleição numa acirrada disputa com o candidato do PT, Geraldo Magela. A disputa dividiu a cidade e os dois candidatos estão tecnicamente empatados nas pesquisas, sendo impossível prever o vitorioso. Por discordar da linha editorial, Cunha teve sua coluna extinta e ficou afastado do jornal, retornando no programa eleitoral gratuito de Roriz para confirmar acusações do governador a Noblat de que o jornalista lhe move oposição por ter perdido contratos comerciais que mantinha no governo Cristóvam Buarque.

Cabral reagiu publicando na primeira página do ?Correio? editorial em que anunciava a convocação de uma assembléia para expulsar Cunha do condomínio. Mas foi atropelado pelo agravamento da crise, provocado pelo descontentamento dos condôminos com as bases de um acordo financeiro que vinha firmando com Gilberto Chateaubriand, herdeiro do fundador dos Diários Associados, Assis Chateaubriand, para que desistisse de ações judiciais contra o condomínio. Gilberto cobra judicialmente parte de uma indenização de R$ 240 milhões ganha pelo ?Correio Braziliense? em ação contra a União, em 1998, e que foram investidos sem consulta prévia à Justiça, onde tramitam seus interesses no condomínio.

A briga judicial gerou o bloqueio dos bens de todos os condôminos pela Justiça, aprofundando a crise financeira do grupo, que registrou prejuízo de quase R$ 80 milhões nos últimos quatro anos. Nesse contexto, o clima voltou-se contra Cabral que acabou recebendo uma carta formal dos condôminos manifestando descontentamento com sua gestão. Decidiu, então, deixar o cargo. Noblat o acompanha.

Ontem (23), um oficial da Justiça Eleitoral esteve no jornal com a missão de conferir o cumprimento de medida judicial que proíbe a divulgação do conteúdo de gravações em que o empresário Pedro Passos, acusado pelo MP de grilagem de terras públicas, conversa ao telefone com Roriz. O ?Correio Braziliense? estampou manchete na primeira página dizendo-se censurado ?a pedido de Roriz?. A mesma proibição foi feita ao ?Jornal de Brasília?, principal concorrente do ?Correio?, extensiva ainda a outras fitas em que o mesmo empresário conversa com integrantes do PT, entre os quais Hermes de Paula, ex-secretário de Obras do governo Cristóvam Buarque.

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) divulgou nota formal condenando a proibição da Justiça Eleitoral ao ?Correio Braziliense?, mas não fez qualquer menção ao ?Jornal de Brasília?.  Era esperada para o início da noite uma nota formal da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), condenando a proibição da divulgação das fitas e considerando a medida da Justiça Eleitoral um revés para a liberdade de imprensa.