No momento mais turbulento de seu governo, o presidente Jair Bolsonaro vem tendo que lidar com mais uma crise, que, embora tenha a ver com saúde, não está relacionada com a compra de vacinas: a de soluço.

Já são 11 dias de reiteradas interrupções em interações com apoiadores, live e entrevista por causa de contrações involuntárias do diafragma. A situação preocupa e ele foi internado na madrugada desta quarta-feira, no Hospital das Forças Armadas.

No Google, houve um aumento repentino de pesquisas com os termos “bolsonaro passa mal”, “crise de soluço bolsonaro”, “bolsonaro soluço”, “bolsonaro” e “bolsonaro soluco”. O próprio presidente abordou o assunto com apoiadores e em uma entrevista no último dia 7.

“Peço desculpa a todos que estão me ouvindo, porque eu estou com soluço já tem cinco dias. Eu fiz uma cirurgia para implante dentário no sábado [3], já aconteceu comigo no passado, talvez, em função dos remédios que eu estou tomando, eu estou 24 horas por dia com soluço”, disse Bolsonaro à rádio Guaíba, do Rio Grande do Sul.

Ao ser aconselhado pelo âncora a levar um susto para se livrar dos soluços, o presidente disse que, “por enquanto, não estou assustado com nada que acontece no governo”.

Depois da conversa que teve com o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Luiz Fux, nesta segunda-feira (12), Bolsonaro concedeu uma entrevista de cerca de 30 minutos, mas só soluçou no começo.

Nesta terça-feira (13), conseguiu fazer um discurso inteiro sem interrupções orgânicas. Mas a paz durou pouco tempo.

Pouco depois da cerimônia no Palácio do Planalto, chegou de motocicleta ao Palácio da Alvorada e voltou a soluçar com apoiadores.

“Eu estou sem voz, pessoal. Se eu começar a falar muito, volta a crise de soluço” alertou o presidente.

“Já voltou o soluço”, disse logo em seguida. Posou para fotos e gravou vídeo para um apoiador. “Está ruim de falar”, reclamou.

O presidente relatou à claque que um colega da Marinha havia dado uma solução para os soluços. Ele experimentou, mas o efeito não durou muito tempo.

“Testei duas vezes hoje e deu certo: tomar água com o copo invertido. Dá certo. Eu estava hoje arrebentado. Fui para o banheiro e [faz gesto de beber água]. Agora, a gente começa a tomar a água aqui [aponta para a boca] e sai pelo nariz”, detalhou.

Mas o que é o soluço?

“Soluço é uma contração abrupta do diafragma, que é o músculo da respiração, seguido de fechamento abrupto da glote, que é como uma tampinha que impede que a comida entre na traqueia. O fechamento abrupto da glote é que dá o ruído tradicional do soluço”, afirma o médico gastroenterologista clínico Ricardo Barbuti.

Entender esse processo ajuda a entender possíveis causas, diz o especialista. “Qualquer músculo do nosso corpo precisa de um estímulo para contrair, e o diafragma não foge à regra, Quem dá estímulo para esse músculo contrair é o nervo frênico, que é um ramo de outro nervo importante, o nervo vago. Qualquer coisa que irrite o nervo frênico ou vago nesse trajeto até o diafragma pode dar soluço.”

Segundo Barbuti, um dos fatores mais comuns é a doença do refluxo gastroesofágico, em que há uma irritação do esôfago. Bolsonaro já afirmou sofrer de refluxo.

Outras causas também podem estar relacionadas, como um estímulo direto sobre o diafragma. “Processos em que têm distensão muito grande do estômago podem fazer com que o fundo do estômago encoste no diafragma e isso gera soluço. É muito comum, por exemplo, soluço depois que come e bebe muito.”

Ingerir líquidos muito gelados também pode levar a soluço, lembra o médico ao comentar os casos mais simples.

Estresse emocional, mudança de temperatura, aerofagia (quando a pessoa engole muito ar ao consumir alguns alimentos), consumo de bebidas com gás e álcool, por exemplo, também podem levar ao quadro, geralmente temporário, diz o otorrinolaringologista Geraldo Druck Sant’Anna, membro da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia.

Ele explica que o quadro costuma durar pouco tempo –às vezes, uma crise pode durar 48 horas. “E tem pessoas com soluço por mais tempo, o que faz com que tenha que entrar em investigação.”

Nesse caso, diz ele, o soluço pode estar ligado a um quadro maior, como alterações no pescoço, no esôfago ou tireoide, além de alterações no sistema nervoso, metabólicas (como diabetes), problemas renais, uso de alguns medicamentos, entre outros.

“É uma série de situações que podem acontecer. Às vezes a pessoa faz uma anestesia geral e acorda com soluço, que pode ficar por algum tempo”, exemplifica.

Barbuti concorda. “As pessoas acham que o problema é sempre no estômago, e não é. Pode ser até algo longe do estômago. Problemas cardíacos, neurológicos, sistêmicos, tudo isso pode levar a soluços.”

O caso deve ser avaliado em conjunto com o médico, por meio do exame do paciente e análise do histórico de saúde, dizem os especialistas, que evitam comentar o caso específico do presidente.

“De forma geral, após 48 horas, as pessoas procuram seu médico”, afirma Sant’Anna, segundo quem a conduta e diagnóstico dependem de cada caso. “Não é uma receita de bolo, igual para todo mundo.”

Para Barbuti, há possibilidade de haver relação com o uso de medicamentos, como citado por Bolsonaro, mas é difícil avaliar sem detalhes.

Segundo ele, alguns remédios podem ser usados para tratar o soluço ou o fator principal que levou a ele. “Se são secundários a uma doença, como refluxo, tratamos a doença e o soluço melhora.”