Base Aérea do Galeão, 16h45m do dia 6 de setembro de 1969. José Dirceu, com um sorriso irônico, levanta as mãos e mostra as algemas. O gesto ficou imortalizado em uma foto na qual Dirceu e outros 12 presos políticos se preparavam para embarcar num Hércules da Força Aérea Brasileira (FAB) rumo ao México, em troca do então embaixador dos Estados Unidos, Charles Elbrick. Passados 37 anos, personagens da foto histórica são consultados sobre a cassação do mandato de deputado de Dirceu. Cinco morreram. Dois estão no exterior e não foram localizados.

 Dos cinco restantes, só um considerou a cassação justa. Mas quase todos afirmam que, no governo, Dirceu enveredou por um caminho diferente do que pregava no movimento estudantil. "Do ponto de vista pessoal é triste, uma tragédia para todos nós da geração de 68, aquela que o Zé disse que subiria a rampa junto com ele no dia da posse. Mas do ponto de vista político não apenas foi justa como muito saudável para a democracia. Não vejo desonestidade pessoal dele, mas é uma concepção política que revela um matiz stalinista e não tem nada a ver com a democracia que queríamos para o Brasil", diz José Ibrahim.

Vladimir Palmeira, pré-candidato ao governo do Rio pelo PT e que alimenta há mais de três décadas amizade com Dirceu proporcional ao antagonismo político, foi sintético: "A cassação foi injusta. Não há provas contra Dirceu. Imagino que a maioria do partido acha que a cassação foi injusta". Segundo ele, Dirceu agora deve enfrentar um processo de disputa política no PT. "Vamos ter disputas políticas no partido, porque não defendemos as mesmas coisas. Mas se ele não vier a ocupar cargos no PT, não terá a ver com a cassação, só mesmo com a disputa política", diz Palmeira.

O argumento da falta de provas foi usado pelo suplente de deputado federal Ricardo Zarattini (PT-SP). "Foi uma cassação política. Zé Dirceu cometeu muitos erros políticos, mas por eles não poderia ser cassado. A Câmara poderia ter adotado posição intermediária, como suspensão do mandato", diz Zarattini.

Aos 78 anos, 54 dos quais dedicados ao PCB, Agonalto Pacheco considera que Dirceu hoje paga pela sua trajetória histórica. "Foi uma grande injustiça. A cassação é resultado do trabalho histórico do Zé Dirceu. As forças reacionárias geralmente se aproveitam de momentos de fragilidade como este para agir", disse.

Embora tenha críticas ao PT, o jornalista Flavio Tavares também considera injusta a queda de Dirceu: "Foi injusta. O PT igualou-se às piores épocas da política brasileira, no estilo da corrupção do Adhemar de Barros e do Maluf, mas no cerne do problema não se toca: o suborno comanda a política e os partidos viram gazua (ferramenta usada para abrir fechaduras) dos cofres públicos. Com a cassação, a Câmara atirou um boi às piranhas, para o resto da boiada (que é o próprio Parlamento) atravessar o rio. Ele foi cassado por presunção, e isso é perigoso, pois não é típico do Legislativo, mas das ditaduras".

Perguntado se Dirceu manteve no governo a chama da geração de 68, Tavares respondeu: "Em parte sim. Mas o jovem que sonhava com o socialismo libertário foi substituído pelo articulador político no estilo vicioso, que buscava manter no poder o partido ou grupo que dirigia. Mas ele teve atitudes positivas. Era o único que, no Planalto, dizia "não" à permissividade reinante. Era o único a dizer "não" aos pedidos de favores esdrúxulos de parlamentares e chefetes políticos. O Zé impediu que o Roberto Jefferson transformasse o IRB e os Correios em covil de suborno para o PTB. Em suma: ele foi cassado por suas virtudes, não pelos defeitos".