Viegas: falar em falta de dinheiro
“é absolutamente precipitado”.

Alcântara – O ministro da Defesa, José Viegas, considerou “precipitado e injusto” atribuir à falta de recursos para o programa espacial brasileiro a responsabilidade pelo acidente na Base de Alcântara, sexta-feira. “O fato de nós havermos projetado o lançamento que seria realizado hoje (ontem) significa que esses recursos eram considerados suficientes para procedermos em segurança”, disse.

Segundo o ministro, ninguém tem ainda condições de saber por que a falha ocorreu e qual a razão do acidente. Para ele, “é absolutamente precipitado” dizer que ele é decorrente da insuficiência de recursos, mesmo porque, “as próprias pessoas envolvidas na missão não alertaram quanto a que os recursos fossem insuficientes para que o lançamento fosse feito”.

Questionado sobre quanto o governo irá investir no programa nos próximos anos, uma vez que o Plano Plurianual está em fase final, Viegas disse que “não há recursos abundantes”. Ele disse, no entanto, que quanto mais recursos forem destinados ao programa espacial brasileiro, “com maior rigor, intensidade e rapidez ele será retomado”.

No entanto, a suspeita sobre a falta de recursos também foi mencionada ontem pelo ministro do Superior Tribunal Militar (STM), Sérgio Xavier Ferolla. Segundo ele, o acidente na Base de Alcântara pode ter sido provocado por falha de material, em conseqüência do longo tempo de desenvolvimento do projeto. Ferolla admitiu que “é difícil especular” sobre a causa do acidente, que considera “meio ilógico”. Ferolla, que foi diretor do Centro de Tecnologia da Aeronáutica no início da década de 90, disse que “pela lógica, o acidente não podia acontecer. O projeto começou a se alongar no tempo pela falta de recursos e, assim, podem ocorrer coisas imprevisíveis, como falhas de componentes, mas é difícil especular agora”.

Ele lembrou que a previsão inicial era que o projeto de Alcântara estivesse concluído há 10 anos. Ele acredita que o projeto poderá voltar à fase na qual estava na semana passada, antes do acidente, em um ou dois anos, “desde que tenha recursos”. Ele não soube estimar os recursos necessários. “Mesmo com a perda dos técnicos é possível retomar o projeto, desde que existam os recursos”, disse. Segundo ele, os técnicos mortos no acidente farão falta ao projeto, mas é possível que ele seja retomado. Ferolla disse ainda que a possível falha de material que teria levado ao acidente, na sua avaliação, pode ter sido provocada também pela dificuldade de acesso do Brasil à importação de componentes de outros países para o projeto aeroespacial. “Tudo tem que ser fabricado aqui, eles (os estrangeiros) não nos vendem por várias razões, mas a principal é a comercial”, disse. O presidente da AEB (Agência Espacial Brasileira), Luiz Bevilacqua, também disse que a falta de recursos poderia contribuir para acidentes.

Prejuízo total é de US$ 30 milhões

Alcântara

– O prejuízo total do acidente com o Veículo Lançador de Satélites de Alcântara é de US$ 30 milhões, de acordo com estimativa do comando da operação. O maior problema, entretanto, será a reposição da equipe. O major-brigadeiro Tiago Ribeiro, coordenador-geral do projeto e diretor do Centro Tecnológico de Aeronáutica, admitiu que haverá dificuldades para substituir as pessoas que morreram na plataforma de lançamento do VLS. Ribeiro disse que a idéia é lançar um outro foguete com tecnologia própria num período de três a quatro anos.

A fim de reunir condições para o projeto, ele pediu apoio ao governo federal para uma política de contratação de pessoal. “Temos que ter uma ação clara e rápida para contratação de recursos para que o sonho possa continuar”, afirmou.

O incêndio que destruiu o VLS-1 (Veículo Lançador de Satélites) e causou a morte de 21 pessoas na Base de Alcântara, no Maranhão, teve início com a ignição espontânea de um dos quatro motores do foguete, afirmou Ribeiro.

O engenheiro Mauro Tolinky, vice-diretor de espaço do IEA (Instituto de Aeronáutica e Espaço) de São José dos Campos (SP), explicou que o acionamento pode ter ocorrido por uma onda eletromagnética, por uma descarga elétrica ou pelo toque de uma peça metálica no reservatório de combustível. Mesmo assim, Tolinky disse que a comissão de investigação não descarta nenhuma hipótese.

Ribeiro recebeu a imprensa na Base de Alcântara pela primeira vez ontem, três dias depois do acidente. Segundo ele, a comissão de investigação deve concentrar seu trabalho em determinar as causas da ignição espontânea. A comissão tem 30 dias para concluir o seu trabalho, mas esse prazo pode ser prorrogado. Segundo o major Tiago Ribeiro o transporte dos corpos das 21 vítimas do incêndio para São José dos Campos deve ocorrer até a tarde de hoje em avião da FAB. Até o final da manhã de ontem seis corpos foram identificados no IML de São Luís.

Os profissionais do CTA trabalhavam na última sexta-feira em procedimentos de ajuste do foguete, já instalado na torre de lançamento, quando um incêndio destruiu o equipamento. As chamas, segundo o coordenador da Operação São Luís (nome da campanha de lançamento), major-brigadeiro Tiago Ribeiro, atingiram até 3.000º C. O veículo lançador carregava dois satélites, o Satec (Satélite de Pesquisas Tecnológicas), do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), e o Unosat, que levava pesquisas da Unopar (Universidade Norte do Paraná). O lançamento deveria ocorrer ontem.

Lula: programa espacial continuará

Lima

– O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, ontem, em Lima, que o governo manterá, “com certeza”, seu programa espacial e continuará a ter em Alcântara, no Maranhão, a sua principal base de lançamento de foguetes. O presidente lamentou a morte dos 21 brasileiros na explosão do Veículo Lançador de Satélites (VLS), na sexta-feira, e destacou que todos prestaram um “inestimável” serviço à nação e ao desenvolvimento de tecnologia de ponta no País.

Segundo Lula, o mais importante é aliviar o sofrimento das famílias das vítimas da tragédia. “O governo prestará toda a solidariedade e fará tudo o que puder para ajudar às famílias”, assegurou o presidente. Ao comentar a violência da explosão que matou os 21 funcionários da Centro de Lançamentos de Alcântara (CLA), no Maranhão, Lula relatou ter sido informado de que em alguns dos corpos das vítimas não seria possível fazer a identificação nem mesmo por exame de DNA.

Em entrevista coletiva ao lado do presidente peruano, Alejandro Toledo, Lula informou que, depois da visita que fará hoje à Venezuela, retornará ao Brasil para conversar com os ministros da Defesa, José Viegas, e da Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral, sobre as causas do acidente em Alcântara e decidir os próximos passos do programa espacial.

Para Lula, o acidente não foi causado por falta de recursos, uma vez que o programa para o lançamento do foguete que colocaria um satélite em órbita, ontem, estava concluído.