A família do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, de 42 anos, que, de acordo com inquérito, foi torturado e morto por policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) em 14 de julho, decidiu internar a mulher dele, Elizabete Gomes da Silva, de 47 anos, numa clínica de reabilitação para dependentes químicos. De acordo com o advogado da família, João Tancredo, Elizabete assumiu que precisa de tratamento, mas ainda resiste à internação.

 

Tancredo afirma que ela voltou a beber e usar drogas como maconha e cocaína um mês após o desaparecimento de Amarildo. No domingo, 10, a família optou pelo tratamento, mas evita a internação compulsória, uma vez que Elizabete não representa risco para ninguém. Os seis filhos aguardam o aval da mãe para iniciar a busca por uma clínica para o tratamento. “Desde o começo, a Bete e os filhos já sabiam como Amarildo tinha sido morto. Essa tragédia devastou a família. Bete trabalha todos os dias, mas nos momentos de folga usa drogas, exceto crack, que podem ser encontradas em qualquer esquina na Rocinha”, afirmou o advogado da família.

O comando das UPPs confirmou que ainda há venda de drogas nas comunidades pacificadas, mas a Polícia Militar (PM) tenta reprimir o tráfico com ações constantes. P ajudante de pedreiro e a mulher tiveram seis filhos. No entanto, Emerson, de 20 anos, e Amarildo Júnior, 18, não têm o nome do pai nas certidões de nascimento. Os jovens entraram na Justiça com pedido de reconhecimento de paternidade e farão exames de DNA para comparar o sangue deles com o dos irmãos e acrescentar o sobrenome de Amarildo de Souza.

 

O casal e os filhos moravam numa casa de um cômodo que era dividida com outras nove pessoas. Porém, desde a morte do ajudante de pedreiro, Emerson e Amarildo Júnior moram com vizinhos. Anderson, de 21 anos, e os outros filhos, de 13, 10 e 6 anos, continuam morando com Elizabete. Na tentativa de ajudar a reestruturar a família, um grupo de artistas liderado pelo cantor Caetano Velloso e pela atriz Paula Lavigne conseguiram arrecadar R$ 60 mil – R$ 50 mil para compra de uma casa na Rocinha no nome dos filhos, mas com usufruto da mãe e R$ 10 mil para os móveis. “Parece que, finalmente, vamos conseguir levar todos para ficar juntos na mesma casa”, disse Tancredo.

 

Indenização

Em outubro, a Justiça decidiu que o governo do Rio deveria pagar uma pensão mensal de um salário mínimo (678 reais) e tratamento psicológico para os seis filhos, a mulher, uma irmã e uma sobrinha de Amarildo de Souza, no valor de 300 reais, por sessão. O advogado chegou a pedir a prisão do secretário de Planejamento e Gestão do Estado Rio, Sérgio Ruy Barbosa, por descumprimento de ordem judicial, mas a família ainda aguarda a resposta do governos do Estado sobre o pedido de indenização.

Dos 25 policiais militares denunciados no caso Amarildo, 13, incluindo o comandante da UPP da Rocinha, major Edson Santos, e o subcomandante, tenente Luís Felipe de Medeiros, estão presos. Na quarta-feira, 6, o atual coordenador das UPPs, coronel Frederico Caldas, pediu desculpas à família do ajudante, em nome da PM, pela morte dele, surpreendendo até mesmo a viúva.