Buenos Aires

– O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso chamou de “demagógico” o programa Fome Zero e previu que Lula terá “problemas políticos e, mais adiante, talvez eleitorais”. “Alertar sobre a fome é bom, mas alertar e não resolver é gravíssimo. O Fome Zero é um slogan, mas esse não é o problema”, ressaltou numa entrevista exclusiva publicada ontem, pelo diário La Nación de Buenos Aires.

FHC disse também que o Fundo Monetário Internacional (FMI) “se enganou com a Argentina” ao negar-lhe ajuda imediata na crise de 2001 e considerou que “é uma ilusão” esperar ajuda dos Estados Unidos em troca de ingressar na Área de Livre Comércio das Américas (Alca) impulsionada por Washington. Sustentou também que o presidente argentino, Néstor Kirchner, “já conseguiu o que era mais importante para a Argentina: recuperar a confiança no país” e demonstrar que a “Argentina não é um caso perdido”.

Afirmou que o programa Fome Zero “tem gancho, é demagógico” e que o governo de Lula deveria avançar “com a universalização do acesso aos serviços sociais, com educação e saúde para todos”. “Tem que ter políticas sociais mais competentes. Até agora não descobriu o caminho nesse tema”, comentou o ex-presidente, que expressou seu desejo em que Lula “não destrua o que já foi feito”. “Lula terá problemas políticos, como está tendo, e mais adiante, talvez eleitorais”, previu.

O ex-presidente destacou que não acha que o governo de Lula vá sofrer uma crise institucional “a menos que eles mesmos a gerem”. Disse que não culpa o governo brasileiro pela queda do crescimento econômico, mas afirmou que a “herança maldita”, da qual Lula constuma falar, “foi gerada pela incerteza que causavam as ameaças” do Partido dos Trabalhadores (PT).

FHC advertiu ainda que “é uma ilusão” que os Estados Unidos ajudem a financiar o desenvolvimento latino-americano em troca de levar adiante a Alca. “Como o grau de endividamento é muito elevado, não podem ser retirados mais empréstimos: o problema principal é resolver o endividamento”, comentou. “Não sei até que ponto os Estados Unidos desejam avançar com as negociações (da Alca), é um interesse cosmético”, ressaltou após afirmar que “em outras épocas houve maior interesse” da Casa Branca em avançar na integração.

O ex-presidente destacou que “o surpreendente” é que o Governo de Lula “mudou muito de posição sobre a Alca”, cujas negociações devem ser concluídas no final de 2005 para abrir gradualmente as tarifas alfandegárias entre todos os países americanos, exceto Cuba. “Eu fui muito mais restritivo que Lula com respeito à Alca”, afirmou, acrescentando que a política externa do atual governo brasileiro “até agora é apenas verbal”. “Verbalmente todos somos favoráveis às integrações na América do Sul, mas é preciso ver depois o que acontece”, disse.