Pressão dos pais e alunos leva diretores a demitirem professores e professoras homossexuais. Esse é um dos resultados do levantamento realizado entre 21 e 25 de fevereiro deste ano pela revista Profissão Mestre (

www.profissaomestre.com.br), publicação segmentada e voltada às organizações e aos profissionais de ensino. Os dados da pesquisa intitulada Homossexualidade na Escola serviram de base para uma investigação mais acurada sobre o preconceito nas escolas brasileiras e revelaram que, ao menor risco de influência na orientação sexual dos alunos, educadores e diretores não hesitam em censurar, e não-somente isso, mas excluir os homossexuais do meio docente.

Para os pesquisados, um professor homossexual influencia na formação e aprendizado do aluno, e por isso, na hora da contratação, é levada em conta a orientação sexual do futuro docente. “A pessoa que assume desde o início a sua homossexualidade torna-se uma excluída ? seja em escola pública, católica, ou particular”, afirma a jornalista Alessandra Assad, coordenadora da pesquisa e editora-executiva da revista Profissão Mestre.

A reportagem conseguiu apurar, por meio de depoimentos, que nas escolas privadas aceita-se o matriculado, mas não se tolera o educando com tendência homossexual. A diferença entre escola pública e privada, nesse particular, é que, naquela, não há o princípio de tolerância. Os dados não param por aí e revelam a hipocrisia reinante do sistema educacional brasileiro.

99% dos homossexuais são enrustidos

O entrevistado e homossexual Luiz Mott, Mestre em Etnologia pela Sorbonne (Paris), Doutor em Antropologia (Unicamp), antropólogo, professor titular do Departamento de Antropologia da Universidade Federal da Bahia desde 1979 e vice-chefe do departamento, recentemente aprovado para o concurso de titular, nota 10, o posto mais alto da carreira acadêmica não escapou do preconceito. Ele revelou em depoimento à revista Profissão Mestre ter recebido ameaças de morte, casa pichada e carro depredado. Segundo ele, 99% dos gays e lésbicas professores vivem presos dentro da gaveta do enrustimento. Desses, afirma Mott, cerca de 1% dos “assumidos/as” raramente utiliza as salas de aula para falar a verdade sobre a homossexualidade, embora todos os alunos e colegas saibam de sua orientação sexual.

Mott conta que quando entrou na Universidade, o seu nome fora indicado para assumir a chefia do Departamento de Antropologia. “Eu era o mais titulado e com melhor perfil para ocupar este cargo. Na minha ausência da reunião, o professor decano do departamento perguntou em voz alta: ?E viado pode ser chefe de departamento?? Não houve resposta dos demais”. Por conta disso, o professor ficou contrariado, e declarou nunca aceitar a chefia de departamento. “Não valia a pena enfrentar esse tipo de constrangimento”, desabafa.

Ensina-se a ser gay?

O escritor Içami Tiba, referência na área de educação brasileira, declarou que para as crianças o professor ser ou não ser gay não vai fazer a menor diferença, acredita que a direção nesse caso, só terá problemas com os pais, que pedirão providências.

Para Içami Tiba, a fase mais crítica é a da puberdade. “Aí sim os problemas surgirão, inclusive de violência”. Ele explica que nesta fase a criança mata a sua porção homossexual para assumir uma identidade sexual. “Tem meninos que não podem ouvir falar em gays, que já saem batendo em todo mundo”. Segundo ele, é a fase da formação da personalidade. “Ele precisa se posicionar perante a sociedade, e por isso a reação chega a ser a mais cruel e violenta das três”, explica.

Já o adolescente procura a sociabilidade na busca pelo relacionamento. Por mais que ele seja inseguro em relação ao sexo oposto, ele já se definiu com relação à sua sexualidade. Ele acredita que os maiores problemas de aceitabilidade estão entre os alunos de escolas mais tradicionais. Mesmo assim, Içami Tiba é taxativo ao afirmar que em nenhuma das fases o exemplo do professor gay vai influenciar no comportamento do aluno. O que pode acontecer é o aluno que tem uma homossexualidade latente despertá-la pelo exemplo do professor ao ver que o mesmo se assume perante a sociedade.

A intolerância vem dos pais

Cerca de 67% dos professores e educadores entrevistados responderam que sabem identificar um homossexual, seja homem ou mulher e desses, perto de 95% relataram que não teriam qualquer tipo de problema ou objeção em dividir a sala dos professores com colegas gays.

A pesquisa, no entanto, registrou por parte de pais relatos de intolerância a docentes homossexuais. Dos entrevistados, 15% disseram que não contrariam um professor homossexual. Os motivos alegados foram: 46% por causa dos pais, 36% acredita que os alunos não o respeitariam, 27% por convicções pessoais e 24% por defender a filosofia da escola em que trabalha.

Educadores preferem silenciar

Vicente Martins, professor do Centro de Letras e Artes da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), em Sobral, Estado do Ceará, afirma que estamos, do ponto de vista tecnológico, na era da Informática, mas em se tratando de educação de valores, na Idade Média. “Em se tratando de civilização brasileira, avançamos muito pouco com relação às idéias sobre corpo, alma e sexualidade inculcadas no século XVI. A situação é ainda mais acentuada quando fazemos referência às questões de ordem sexual no âmbito da educação escolar”, afirma.

Ele acredita que a homossexualidade é tema que educadores, sejam diretores, coordenadores ou professores, com ou sem pós-graduação, fazem questão de silenciar. “Nós evitamos comentar o assunto. Ignoramos as crianças e adolescentes com tendências homossexuais e ficamos torcendo, de forma iníqua, que no futuro, isto é, na fase adulta, os homossexuais mudem de opção sexual”.

Homessexual vive à surdina em colégio católico

*Rafael é professor de Educação Física há um ano numa escola católica tradicional de Curitiba-PR. Lá, ninguém sabe de sua orientação sexual e por isso a relação com os alunos é natural, normal, longe de qualquer tipo de discriminação. Ele acredita que, se alguém descobrir, não terá problemas, pois conhece outros docentes homossexuais na escola, e está lecionando nesse colégio pelo profissionalismo e não pela orientação sexual. Quanto aos pais, *Rafael acredita que interfeririam quando soubessem que os filhos têm aulas com professores homossexuais, uma vez que estariam fugindo do padrão que a sociedade impõe. “Muitos pais hoje não têm tempo para educar os filhos e acabam jogando mais essa responsabilidade para a escola. Os alunos estão em período de formação e e se espelham no professor”, acredita irmã *Efigênia, diretora de uma das sedes de uma grande rede de Ensino Católico (presente em 10 estados brasileiros).

Ela foi categórica ao contar para a equipe de reportagem que a escola não contrata professores homossexuais por ser uma instituição de ensino católico. “Seria contra a nossa filosofia”, diz. Ela acredita que os pais dos alunos não aceitariam, pois procuram o colégio justamente por oferecer um ensino tradicional, religioso. A diretora reconhece que a discriminação existe ao não contratar um professor ou uma professora somente por causa da orientação sexual, mas normas são normas.

A reportagem de Profissão Mestre traz ainda depoimentos de especialistas em Comportamento Humano e Direitos Humanos, além da opinião de profissionais de Educação e pais de alunos.

* Os nomes em asterisco foram trocados para preservar a privacidade da fonte.

Sobre a Pesquisa

A pesquisa Homossexualidade na Escola foi realizada por meio de enquete on-line, num questionário misto, composto por perguntas fechadas e abertas, e contou com a participação de 490 entrevistados, entre diretores, educadores e pais de alunos.

“A maior dificuldade no levantamento das informações foi a não-disposição dos entrevistados, especialmente consultores e profissionais da educação, que preferiram silenciar-se a fazer qualquer declaração sobre o tema abordado“, conta a jornalista Alessandra Assad, coordenadora da pesquisa e editora-executiva da revista Profissão Mestre, da Humana Editorial, e diretora de Redação da Editora Quantum, que edita as revistas VendaMais e Mulher Executiva (

www.editoraquantum.com.br).

A reportagem, capa da edição de abril/2003 da revista Profissão Mestre, teve a participação de Josiane Benedet, Brasílio Andrade Neto,Cione Haires, Rodrigo Saporiti,Valéria Poletti e Vivian de Albuquerque. O texto na íntegra também pode ser acessado pelo link: http://www.profissaomestre.com.br/php/pm_entrevista.php

Serviço:

A revista

Profissão Mestre, em seu quarto ano de existência, traz todos os meses assuntos sobre o melhoramento contínuo da carreira do professor e se propõe a apresentar um programa de estudo baseado nos seis pilares: autoconhecimento, poder da imaginação, foco na meta, atualização constante, aprendizado em equipe e compreensão dos sistemas. O diretor e editor da publicação é o consultor em Educação e palestrante Júlio Clebsch.