Roberto Stuckert / Agência Globo

O ex-ministro José Dirceu se acomoda
para depor no momento em
que Jefferson passa por ele.

Brasília – No embate mais esperado da política nacional dos últimos tempos, os deputados José Dirceu (PT-SP) e Roberto Jefferson (PTB-RJ), antigos aliados e hoje inimigos, ficaram no dito pelo não dito. De um lado, Dirceu negou todas as acusações de Jefferson, que, por sua vez, reafirmou tudo. Os dois se encararam várias vezes, olho no olho, e fizeram questão o tempo todo de demonstrar que não baixariam a guarda.

Roberto Jefferson se valeu, principalmente, da ironia e do domínio da oratória como advogado criminal. Dirceu usou como armas a serenidade e a firmeza nas respostas. O ex-chefe da Casa Civil prestou depoimento no Conselho de Ética da Câmara como testemunha no processo em que Jefferson é acusado de quebra de decoro parlamentar por ter levantado suspeitas sem provas de envolvimento de deputados do PL e do PP no mensalão.

?Foi o maior tráfico de influência, a maior corrupção pública, a maior corrupção política de um partido. O PT não poderia agir sozinho se não tivesse um braço no governo. Volto a afirmar que, infelizmente, esse braço é Vossa Excelência?, atacou Jefferson, voltando-se a Dirceu. O ex-ministro negou ponto a ponto todas as acusações feitas por Jefferson desde o início do escândalo. E se disse estarrecido com a denúncia de que seria responsável por comandar o suposto esquema de pagamento de propinas a deputados:

?Jefferson não me acusa apenas de ter conhecimento do mensalão, mas de ser operador, o administrador, de ter criado o mensalão. Isso é uma coisa estarrecedora. Fico me perguntando que Pais é este, como diz a música (da banda Legião Urbana)?, disse. Chamado de ?professor da escola de mentiras? pelo petebista, o ex-chefe da Casa Civil rebateu lembrando contradições do rival.

?O deputado Roberto Jefferson tenta passar para a nação que eu sou o homem que mente e ele é o homem que não mente. Mas ele mente, sim?, disse Dirceu, argumentando que Jefferson apresentou mais de uma versão sobre o que fez com o dinheiro que teria recebido do PT na campanha de 2002. Diante de Dirceu, Jefferson reafirmou várias vezes as denúncias feitas contra o ex-ministro. ?Tudo o que eu disse e que ele desmentiu aqui eu reitero, eu reafirmo?, garantiu o deputado do PTB.

Dirceu argumentou que o governo agiu certo e mandou apurar nos órgãos públicos as denúncias de corrupção que foram feitas, tendo acionado a Polícia Federal e o Ministério Público. ?Não sou investigado, ao contrário de Roberto Jefferson, que é réu confesso?, disse.

Jefferson ironizou a estratégia de defesa de Dirceu, que negou ter tido conhecimento das operações financeiras do empresário Marcos Valério (suspeito de ser financiador do mensalão). ?O ex-ministro José Dirceu vem humildemente dizer a este plenário que não sabia das movimentações financeiras do senhor Marcos Valério, dos saques no BMG, no Banco Rural e no Banco do Brasil. Quer dizer que ele não sabia nada disso? A Abin (Agência Brasileira de Inteligência) não contou para ele, ele não lia os relatórios??

Os ataques e contra-ataques foram também no campo pessoal. Sempre irônico, Jefferson deu parabéns a Dirceu por se apresentar no Conselho de Ética ?despido da arrogância e da empáfia? dos tempos de chefe da Casa Civil.

Planalto pára para ouvir o ex-ministro

Brasília – O Palácio do Planalto parou ontem para acompanhar o depoimento do ex-ministro e deputado José Dirceu. No início da noite, ministros e assessores da casa disseram estar ?aliviados?, pois não teria sido desta vez que a crise chegou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A Secretaria de Imprensa do Planalto divulgou uma agenda com vários despachos administrativos de Lula durante o dia.

Na prática, no entanto, ele só deu atenção à crise, avaliando a possibilidade de Dirceu complicar ainda mais a vida do governo e parlamentares da base aliada acusados de receberem ?mensalão? renunciarem aos mandatos, informaram assessores. ?Dirceu deixou algumas questões sem resposta, mas pelo menos não complicou mais a vida do presidente?, disse um assessor.

Lula se encontrou duas vezes pela manhã com o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), na Granja do Torto e no Planalto, para discutir uma saída para a crise. Um ministro chegou a dizer que o palácio não estava preocupado em salvar o mandato de José Dirceu e de outros deputados, como João Paulo Cunha (PT-SP).

E negou que Lula e Severino tentam evitar a cassação de deputados do PP e do PT. ?Quem está de joelhos é essa gente que destruiu um partido de 25 anos, não o Planalto?, afirmou um ministro.

A Secretaria de Imprensa do Planalto informou que Lula e Severino conversaram sobre medidas provisórias que reduz impostos e cria o projeto Fábrica Escola. Mas o próprio Lula, em discurso numa solenidade, deixou claro que a informação da secretaria era limitada. ?Hoje disse ao presidente Severino que o projeto do Fundeb deve ser aprovado ainda neste ano?, disse Lula, referindo-se à proposta que aumenta os investimentos no ensino básico.

O ministro da Secretaria de Relações Institucionais, Jaques Wagner, disse por meio da assessoria, que o discurso de José Dirceu foi ?seguro? e ?significativo?. Já o ministro Luiz Dulci, da Secretaria Geral, afirmou que não acompanhou o depoimento de Dirceu.