Belém  – Valentina de Andrade, absolvida no fim da tarde de sexta-feira no processo em que era acusada de ser a mentora da morte de três crianças e da emasculação de outras duas em Altamira (PA), já está livre. Depois do anúncio da sentença, ela foi levada à penitenciária onde ficou presa desde 4 de novembro, assinou o alvará de soltura e passou a noite no hotel mais luxuoso do Pará.

Valentina tem visto de permanência nos EUA, válido até 2006, mas diz que não vai deixar o Brasil. A assistência da acusação informou que vai recorrer da sentença, que, de acordo com a promotoria, contrariou as provas apresentadas. No hotel onde se hospedou, Valentina disse que não teme ser investigada novamente.

O Ministério Público esperava a condenação de Valentina porque outros quatro acusados no caso já foram condenados. Mas, em relação à suposta vidente, os jurados entenderam que faltaram provas que confirmassem a acusação de que ela lidera uma seita satânica de magia negra. Valentina de Andrade foi absolvida por seis votos a um, em sentença lida pelo juiz Ronaldo Valle, do Tribunal de Justiça do Pará.

“Sempre fica a sensação de impunidade” disse Ofhir Cavalcante, presidente da seção Pará da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). “A gente precisa trabalhar melhor para que os inquéritos sejam mais bem feitos.”

Para Douglas Martins, representante do Ministério da Justiça, houve mais elementos comprobatórios do que nos outros (dos demais acusados no processo). “O grande problema é que há uma organização criminosa, na medida em que os crimes são cometidos em série e por várias pessoas. Isso não foi devidamente investigado aqui”, criticou.

A divulgação da sentença causou tumulto dentro da sala do júri. Parentes das vítimas, que esperavam o veredito com flores nas mãos, ficaram revoltados. Uma mulher foi presa, acusada de apedrejar o carro onde estavam os advogados de Valentina. Muitos saíram da sala do júri chorando. A PM precisou fazer uma segurança especial de argentinos, integrantes da seita liderada por Valentina, que acompanharam desde o início, os 17 dias de julgamento. “Foi uma injustiça muito grande que eles fizeram conosco”, disse uma parente de vítima.

Líder da organização Lineamento Universal Superior (LUS), Valentina de Andrade, de 73 anos, foi localizada em novembro por policiais federais quando tentava sair do país, no Aeroporto de Guarulhos (SP). Os outros quatro acusados foram julgados e condenados a penas que variam de 32 a 77 anos de cadeia em regime fechado. Eles estão presos no Centro de Recuperação de Marituba.

Valentina morava em Londrina. No Paraná, a seita foi investigada por suspeita de envolvimento com o desaparecimento de crianças em Umuarama e Guaratuba.