Brasília

– O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve fazer apenas uma minirreforma ministerial, desistindo da faxina em seu inchado ministério. Lula dá sinais de que prevaleceu a tese de uma mudança apenas para acomodar o PMDB, cuja participação no governo já foi garantida publicamente pelo presidente. No Palácio do Planalto, perdeu a tese de que Lula deveria limpar seu ministério, reduzindo o número de órgãos e acabando com a superposição de funções, principalmente na área social.

Para interlocutores próximos, a decisão do presidente foi uma derrota da posição do chefe da Casa Civil, José Dirceu, vencido em duas teses: era o principal defensor de uma ampla reforma ministerial e também queria que ela saísse logo. Mas Lula preferiu deixar as mudanças para janeiro, depois da votação das reformas no Congresso. “Se Lula fizesse agora uma reforma ampla, ficaria a impressão de que passou recibo de que ficou o ano todo com o ministério errado”, avalia o líder do PSB, Eduardo Campos (PE).

A tese de uma reforma ampla foi defendida não só por José Dirceu, mas também por integrantes da Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica (Secom), do ministro Luiz Gushiken. Já a tese de uma minirreforma é compartilhada por parlamentares do PT e pelo chefe da Secretaria Geral da Presidência, Luiz Dulci. “O PMDB ficaria melhor, se fosse uma reforma ampla. Pediram ao partido que indicasse os ministérios e os nomes. Para o PMDB não basta participar com ministérios. O partido quer integrar o núcleo de poder. Sem o PMDB, não haverá governabilidade nem reforma”, disse o líder do partido no Senado, Renan Calheiros (AL).

Acomodações

O próprio Lula mostrou que as mudanças não serão tão amplas como se imaginava. Antes de viajar, o presidente elogiou ministros que estavam nas listas de possíveis demissionários em cerimônias. Mesmo assim, o Planalto avalia que a ministra Benedita da Silva, da Promoção e Assistência Social, deverá sair na reforma ministerial. Ela ficou desgastada com o episódio da viagem a Buenos Aires para participar de um encontro religioso, com dinheiro público.

O ministro da Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral, do PSB, também poderá sair. Uma das hipóteses é que Miro Teixeira fosse transferido para esse ministério, deixando o das Comunicações para o PMDB. Mas isso só daria resultado se Miro deixasse o PDT e se filiasse ao PSB. Os ministérios das Cidades (Olívio Dutra) e do Planejamento (Guido Mantega) também são cobiçados pelo PMDB.

O acordo com o PMDB foi fechado num almoço entre Dirceu e Renan Calheiros na última segunda-feira. Dirceu foi direto ao assunto: disse que a reforma seria pequena e com o objetivo de acomodar o PMDB. Os dois políticos concluíram que a melhor forma de conseguir os ministérios seria o PMDB entregar a Lula os nomes dos indicados e das pastas de interesse do partido. Assim Lula teria justificativa para pedir o cargo de alguns petistas para incluir o PMDB.

Brasil sedia reunião do G-20 na sexta-feira

Byblos

(Líbano) – Na próxima sexta-feira haverá uma reunião, no Brasil, entre representantes do G-20 (grupo de países em desenvolvimento que exige a redução das barreiras para o comércio de produtos agrícolas) e da União Européia. A informação foi dada ontem, no Líbano, pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. O evento também contará com a participação do diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Supachai Panatchpakdi.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva receberá a delegação do grupo. Por conta disso, a reunião, que inicialmente estava marcada para acontecer no Rio de Janeiro, foi transferida para Brasília. De acordo com o chanceler brasileiro, será uma excelente oportunidade de retomar conversações após a conferência da OMC, que aconteceu em setembro deste ano em Cancún, no México. “É a primeira vez que dois grandes blocos vão se encontrar para tratar de assuntos importantíssimos”, disse.

Amorim ressaltou que a reunião é, por si só, uma demonstração da força do G-20, criado pouco antes da conferência no México. Na opinião de Amorim, as decisões do grupo não podem ser desconsideradas, “porque são forças sem as quais não se avança na OMC”.

O principal ponto que o Brasil trata nesse bloco é a agricultura. Os países desenvolvidos, como Estados Unidos e integrantes da União Européia, têm imposto uma série de restrições aos produtos brasileiros.

O ministro afirmou ainda que os Estados Unidos, em especial Robert Zoellick, responsável pelo comércio externo dos EUA, foram convidados para participar da reunião. No entanto, ainda não há confirmação de nenhum representante do país na reunião.

Comitiva se sente aliviada

Abu Dhabi (Emirados Árabes) – Alívio geral. Essa foi a sensação do presidente Lula e da comitiva que o acompanha na viagem a cinco países do mundo arabe, ao tomarem conhecimento de que os líderes da base do governo e da oposição fecharam um acordo de procedimentos para votar a reforma tributária.

Segundo a assessoria do presidente, Lula ficou muito satisfeito ao saber que o acordo foi fechado por todas as partes interessadas, governo, oposição e governadores. Lula ficou sabendo do acordo, pela manhã, ao ler as notícias dos principais jornais brasileiros.

Presidente visita cidade histórica

Byblos (Líbano)

– Em seu quarto dia de viagem pelo Oriente Médio, a comitiva do presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou ontem a cidade histórica de Byblos, a 37 quilômetros de Beirute, berço da civilização fenícia e da linguagem escrita, um dos principais sítios arqueológicos da região.

Com uma agenda tipicamente turística, Lula e seus acompanhantes andaram pelas ruínas de um castelo construído pelos cruzados no século XII, uma fortaleza medieval constituída de enormes blocos de pedra com vista para o Mar Mediterrâneo. “Queria saber como o pedreiro jogava o tijolo para o outro pegar lá em cima”, brincou o presidente.

No castelo, os integrantes da comitiva puderam ver peças das várias civilizações que ocuparam a cidade, cujos primeiros registros datam do século VII a.C., antiga capital do estado bíblico de Canaã. O ministro da Integração Regional, Ciro Gomes, ficou particularmente curioso com um alfabeto fenício com as letras correspondentes em árabe e ao alfabeto ocidental. Enquanto Lula recebia explicações de um guia, Ciro tentava escrever seu nome em fenício, mas não conseguiu, pois o alfabeto não tem a letra “o”.

Ao final do passeio, Lula recebeu uma réplica da medalha usada pelos fenícios em suas embarcações. O arcebispo da Igreja Católica Maronita no Brasil, monsenhor Joseph Mahfouz, lembrou que os fenícios chegaram ao Brasil 2.500 anos antes de Pedro Álvares Cabral. “Li as inscrições fenícias no Rio de Janeiro e na Paraíba”, garantiu o monsenhor.

Terceira escala

De Byblos, o presidente voltou para Beirute, onde visitou o terreno doado pelo governo libanês para a construção da Casa do Brasil e de lá foi para o aeroporto, onde embarcou para Abu Dhabi, nos Emirados Árabes. O plano de vôo da comitiva presidencial de Beirute para Abu Dhabi foi alterado por conta da guerra. Isso porque a autoridade aérea da Arábia Saudita recomendou que o avião presidencial não se aproximasse da fronteira do Iraque, zona de exclusão de tráfego. A aeronave teve, portanto, de fazer uma rota paralela. Pelo plano inicial, o avião passaria a cerca de 40 quilômetros da fronteira, mas acabou voando a aproximadamente 200 quilômetros. O vôo, entretanto, não atrasou em função dos ventos a favor, informou a Aeronáutica.

Em Abu Dhabi, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi recebido pelo Sultão Bin Zayed, vice-primeiro-ministro do país. Lula não tinha compromisso marcado para a noite de ontem. Somente a primeira-dama, Marisa Letícia, tem jantar com a sheika Fatma, no Palácio Al Bahr.

Hoje, o presidente embarca para Dubai, a principal cidade dos Emirados Árabes, para participar da Semana do Brasil. Vai se encontrar, também, com o príncipe herdeiro de Dubai, xeque Mohammed bi Rashid.