Presidente brasileiro abriu
a 59.ª Assembléia-Geral da ONU.

Nova York – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem, na abertura da 59.ª Assembléia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), que a construção da paz passa por uma nova ordem internacional. Lula conclamou os 191 países membros da ONU a lutarem pela reforma do modelo de desenvolvimento global e defendeu o multilateralismo das instituições.

“Constato, com preocupação, que persistem graves problemas de segurança, pondo em risco a estabilidade mundial”, disse, ao citar a situação do Oriente Médio. Ele argumentou ainda que o combate ao terrorismo não pode ser concebido apenas em termos militares. “Uma ordem internacional fundada no multilateralismo é a única capaz de promover a paz e o desenvolvimento sustentável das nações”, insistiu.

Lula disse que continua a existir no mundo o colonialismo “econômico e social” perpetuado pelas regras comerciais. “O fim do colonialismo afirmou, na esfera política, o direito dos povos à autodeterminação e esta Assembléia (da ONU) é o signo mais alto de uma ordem fundada na independência das nações.” “A transformação política, contudo, não se completou no plano econômico e social. Barreiras protecionistas e outros obstáculos ao equilíbrio comercial, agravados pelas concentração dos investimentos, do conhecimento e da tecnologia, sucederam-se ao domínio colonial”, disse o presidente.

Lula fez o discurso de abertura, ontem, dos debates da 59.ª Assembléia Geral da ONU. Tradicionalmente é o Brasil quem abre a sessão. O presidente fez um discurso focado na necessidade de justiça social relacionando à segurança internacional com o desenvolvimento econômico das nações pobres.

Embora não tenha se referido diretamente à demanda do Brasil por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, Lula fez uma defesa vigorosa da reformulação do órgão. “Nenhum organismo pode substituir as Nações Unidas na missão de assegurar ao mundo convergência em torno de objetivos comuns”, disse. “Só o Conselho de Segurança pode conferir legitimidade às ações no campo da paz e da segurança internacionais, mas sua composição deve adequar-se à realidade de hoje e não perpetuar a do pós-Segunda Guerra.”

Por sua vez, o secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, exaltou o multilateralismo e defendeu um mundo em que a força emane do direito, em nova condenação à política dos EUA no Iraque. “Em tempos difíceis, as Nações Unidas são o indispensável lugar comum de toda a família humana”, disse, antes de George W. Bush falar.

E Bush defende a guerra no Iraque

Nova York – Com os olhos postos nas eleições americanas do dia 2 de novembro, o presidente George W. Bush procurou ontem suavizar sua imagem de unilateralista impenitente e pediu a ajuda da comunidade internacional na reconstrução do Iraque, em discurso à Assembléia-Geral das Nações Unidas. Falando a uma cética platéia de mais de uma centena de chefes de governo, o líder americano voltou a defender a sua decisão de invadir o Iraque, mas não mencionou a recusa do Conselho de Segurança em endossá-la e evitou o tom de admoestação do discurso que fez à organização mundial no ano passado, quando chamou os presentes a “assumir suas responsabilidades”. Bush foi aplaudido apenas uma vez, de forma moderada, ao encerrar seu discurso.

Bush deixou claro, no entanto, que a cooperação que espera é para o projeto de estabilização e democratização do Iraque nos termos definidos por sua administração, cuja situação descreveu como bem favorável, a despeito das evidências em contrário.

Num claro contraste com o discurso que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez pouco antes da tribuna da ONU, o líder americano ofereceu também uma visão otimista de um mundo com menos fome, doença e opressão, baseado no seu receituário e nas iniciativas de aumento da ajuda internacional que anunciou na semana passada “para expandir a prosperidade e acelerar a marcha da liberdade no mundo”.