Em cerimônia marcada por um clima de constrangimento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva empossou o professor Roberto Mangabeira Unger no cargo de ministro da Secretaria de Planejamento de Longo Prazo. Em discurso, Lula ressaltou que é preciso pensar o País no longo prazo e não comentou as críticas de Unger feitas a ele e ao seu governo no primeiro mandato. Unger chegou a escrever, em artigo publicado em 2005, que o presidente era "orgulhoso de sua própria ignorância" e que o governo era "o mais corrupto da história nacional".

No discurso de posse, Mangabeira Unger disse que Lula teve "magnanimidade" em nomeá-lo ministro. Mas não fez uma declaração retirando expressamente as críticas feitas ao presidente. "Ao me convocar para esta tarefa, o senhor demonstrou magnanimidade, pois critiquei com veemência e combati com ardor seu primeiro governo", afirmou. "O senhor demonstrou grandeza interior e preocupação com o futuro", acrescentou. "Orientar-se ao futuro é antever e antecipar uma vitória sobre os constrangimentos do presente.

Mesmo fazendo declarações de elogio a Lula e ao governo, Mangabeira apresentou, durante todo o discurso, uma expressão facial e um tom de voz agressivos, como se estivesse respondendo aos muitos adversários que o criticaram depois que foi escolhido para o cargo pelo presidente da República.

Com sotaque americano, o novo ministro, licenciado da Universidade de Harvard, onde lecionava de Filosofia do Direito, abusou de frases de efeito semelhantes às usadas pelo presidente Lula. Disse que o Brasil deixou de ficar de "joelhos" diante de organismos internacionais, que o País vive um "momento mágico", que a parte "esfomeada" da população está dando um exemplo e que é preciso "reinventar" o desenvolvimento. Lula acompanhou o discurso do seu novo subordinado de cabeça baixa, às vezes cofiando o bigode – um gesto com o qual o presidente, segundo assessores, demonstra falta de paciência.

Depois, Lula cumprimentou Mangabeira, mas, diferentemente do que costuma fazer nessas ocasiões, não abraçou o novo ministro. Após a cerimônia, o assessor de Assuntos Internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, cumprimentou Mangabeira e disse, rindo: "Boa sorte. Você vai precisar." Mangabeira, cercado de jornalistas, se retirou do Salão Oeste, local da posse, sem responder a perguntas sobre as críticas feitas no passado e sobre os projetos que pretende desenvolver na Secretaria de Planejamento de Longo Prazo.

O Instituto de Pesquisas Aplicadas (IPEA), que vem se destacando por análises e estudos sobre a realidade brasileira, deverá ser subordinado ao novo ministro. O governo pretende editar, em breve, um decreto transferindo o órgão do Ministério do Planejamento para a Secretaria de Planejamento de Longo Prazo.