Londres – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva levará na sua bagagem para o encontro de cúpula do G-8, que ocorre neste final de semana em Evian, na França, um ambicioso elenco de propostas que serão apresentadas aos líderes dos países mais ricos do mundo: o fim dos subsídios e do protecionismo na agricultura, apoio a um fundo mundial contra a fome, criação de um organismo de apoio à infra-estrutura na América Latina e também a antiga reivindicação brasileira de ocupar uma cadeira permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Mas, apesar dos primeiros cinco meses de seu governo estarem recebendo aplausos em Washington, Londres, Paris e outras capitais do mundo, analistas acreditam que Lula deverá obter algumas promessas de longuíssimo prazo, a exemplo do que já ocorreu no passado com seus antecessores e líderes de outras nações em desenvolvimento. E, dificilmente, retornará ao Brasil com resultados concretos relevantes.

Entre os vários temas a serem tratados pelo presidente brasileiro, a queda de barreiras para os produtos agrícolas dos países em desenvolvimento é considerado o mais importante. O impasse nessa questão é visto como um dos principais entraves da rodada multilateral de comércio de Doha e também no avanço das negociações para a formação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e as negociações entre Mercosul e União Européia (UE).

“Concessões cosméti cas”

Para o professor de economia política e desenvolvimento da London School of Economics, Robert Wade, concessões na área agrícola por parte dos Estados Unidos e à UE não deverão ocorrer tão cedo. “Podem ocorrer pequenas concessões cosméticas, mas nada muito além disso”, disse Wade. Segundo ele, os Estados Unidos estão “no buraco do unilateralismo e ainda tentando lidar com esse novo papel”.

Por isso, pode surgir até algum apoio na forma de fundos de apoio ao desenvolvimento, ou contra a fome. “Mas todos os acordos comerciais nascidos da rodada do Uruguai, como o Gatts, Trips são extremamente favoráveis aos Estados Unidos e eles não vem razão para alterar isso, ainda mais agora”, afirmou o acadêmico. “Mudanças, se vierem, apenas em longo prazo.”

O professor de economia do desenvolvimento da Universidade de Manchester, Edmond Amann, observou que Lula está tentando inserir o Brasil na economia global com uma nítida bandeira de defesa do multilateralismo e defesa dos interesses dos países em desenvolvimento. “Mas embora países como a França e Reino Unido e outros países vejam essa postura com simpatia, os Estados Unidos continuam muito céticos”, disse Amann. “Por isso, podemos ver alguma retórica construtiva para os fundos contra fome, de apoio à América Latina, mas acho que qualquer grande avanço somente poderá ocorrer num longo espaço de tempo.”

Segundo ele, mesmo a ampliação do Conselho de Segurança da ONU é “um tema que já circula há muitos anos, com muitas promessas e acenos, mas sem fatos concretos”.

Amann salientou que os líderes dos países ricos estão “muito aliviados” com os primeiros meses do governo Lula, principalmente com a linha ortodoxa adotada pela equipe econômica brasileira. “Não há como não aplaudir e não falar em Lula como um modelo de líder de centro-esquerda”, afirmou. “Mas apesar desse clima favorável, ainda persiste um clima de cautela, pois todos estão esperando para ver como Lula irá lidar com as imensas expectativas de melhoria social que criou, dentro e fora do Brasil.”

Segundo Amann, um teste real para o apoio que o governo Lula conta no exterior seria no caso de um novo choque externo, que colocasse as finanças do País novamente em risco. “Não acho que isso vai acontecer, mas aí sim poderíamos constatar como os Estados Unidos e outras potências realmente se comportariam em relação ao Brasil, principalmente através do Fundo Monetário Internacional (FMI)”, disse.

Críticas aos juros bancários

São Bernardo do Campo – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou ontem, quando se dirigia ao Aeroporto de Cumbica para embarcar para a reunião do G-8, as taxas de juros cobradas pelos bancos do País e afirmou que os índices deveriam ser similares aos da Selic, determinada pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom). Segundo o presidente, se os juros do país tivessem percentual equivalente ao da Selic, “haveria uma fila de gente querendo dinheiro a 26,5% ao ano (índice da Selic)”.

“Qual é o problema do Brasil? Isto aqui (mostrando o relatório do IPEA) é minha leitura de cabeceira no avião hoje (ontem) à noite”, afirmou o presidente, empunhando um relatório do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). O presidente também comentou números do documento, afirmando que “nenhum país do mundo consegue se desenvolver se as taxas de juros são maiores do que as taxas de lucro do setor produtivo”. “Eu vou mudar isso e o Brasil vai voltar a crescer”, garantiu.

Reunião difícil

Sobre o encontro com dirigentes no continente europeu, Lula afirmou que “não será uma conversa fácil”. “Eu não sou o primeiro a tentar. Outros já tentaram antes de mim, mas, como a política é muito dinâmica, eu estou convencido de que a ordem econômica mundial começa a pensar melhor em como resolver os problemas dos países emergentes. Até porque, quanto mais mercado tiver nos emergentes, mais possibilidade eles têm de vender os produtos que eles produzem.”