Nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sonhava há quatro meses com um quadro tranqüilo no começo deste ano, em que vai disputar a sua reeleição. A mais recente pesquisa feita pelo Datafolha e divulgada quarta-feira, mostra que a avaliação do governo ficou estável desde o início do mês. Os eleitores que consideram o governo Lula ótimo ou bom somam 37%, enquanto uma parcela de 39% o julga regular e um percentual de 22%, péssimo.

A imagem pessoal de Lula melhorou. De acordo com o Datafolha, 53% dos eleitores consideram o desempenho pessoal do presidente ótimo ou bom. Na pesquisa de outubro este percentual era de 40%. E mais: é a primeira vez em quatro meses que Lula aparece à frente do prefeito José Serra no primeiro turno. Na comparação com a pesquisa anterior, feita há três semanas, Lula subiu de 33% para 39%, enquanto Serra recuou de 34% para 31%. Já no segundo turno, o presidente venceria a disputa com 48% dos votos contra 43% do prefeito de São Paulo.

Se o quadro para o presidente Lula é tranqüilo, azedou para a oposição. O prefeito José Serra, principal adversário de Lula, enfrenta dura resistência em seu próprio partido e pode cair fora, favorecendo Lula. Alckmin é mais fraco nas pesquisas e poderia não contar com o entusiasmo dos seguidores de Serra (prefeito pode disputar as eleições presidenciais em 2010 e isto seria impossível se Alckmin eventualmente vencer).

Segundo o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, Serra ainda estuda as conseqüências de sua eventual saída do cargo para se candidatar à presidência pelo PSDB. Na realidade, Serra sairia candidato se houvesse um movimento forte no seu partido para compensar o desgaste de largar a prefeitura de São Paulo, depois de assinar na campanha de 2004 um documento jurando que não faria isto.

Mas, ocorre que o governador Geraldo Alckmin insiste que é o melhor candidato, apesar de sua performance nas pesquisas não serem animadoras. ?O prefeito tem a disposição de ser candidato, é impossível negar isso. (Mas) Ele tem a sua estratégia. Ele tem uma margem de ação muito mais limitada do que tem o governador Alckmin, que está em final de mandato?, observou Aécio. Segundo o governador mineiro, ?Serra está fazendo uma avaliação, que ele deve fazer com muita cautela, das conseqüências da sua saída?.

Alckmin pediu anteontem a realização de prévia interna para indicar o candidato do partido, alegando que as bancadas paulistas e no Congresso o apóiam. A cúpula tucana teme que a prévia consolide o pior: um racha no partido que junto à tendência de crescimento de Lula nas pesquisas, sepultaria de uma vez por todas as chances de derrotar o PT nas eleições de outubro. Tentando evitar o desastre, a executiva nacional do PSDB começou a debater uma nova fórmula de consulta para livrar o partido do racha irremediável de uma prévia, mas o presidente nacional do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), pediu mais prazo. Ele quer aproveitar os próximos dias para investir pesado na costura da unidade partidária, intensificando suas conversas pessoais com os dois pré-candidatos à corrida presidencial, Alckmin e Serra.

?O Tasso quer um pouco mais de tempo para conversar, mas passado o Carnaval, vamos ter de definir uma forma de consulta para escolher o candidato?, resume o vice-presidente do PSDB, deputado Alberto Goldman (SP), convencido de que os tucanos partilham pelo menos uma avaliação consensual: a de que quanto mais cedo for definida a candidatura, melhor para todos. O esforço, agora, é para evitar um confronto direto entre Serra e Alckmin e o inevitável desgaste público do perdedor, no caso de a definição ser tomada pelo voto.

A fórmula alternativa às prévias é simples. Em vez de levar os nomes de Serra e Alckmin a voto no Diretório Nacional, os dirigentes examinariam um ?relatório? com uma proposta de candidatura presidencial. Quando chegar às mãos do diretório, a ?recomendação? contida no documento já terá passado pelo crivo da executiva nacional. A idéia de levar a voto um ?relatório? e não os nomes dos pré-candidatos foi a saída encontrada por parte da executiva nacional, que se reuniu informalmente na tarde de terça-feira, enquanto Tasso almoçava com Alckmin, o governador mineiro Aécio Neves e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Presidente nega que esteja em campanha

Sem citar nomes, mas dando como exemplo o estado de São Paulo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem, no Piauí, que muitos governadores recebem dinheiro do governo federal e não reconhecem a ajuda. O presidente citou o estado de São Paulo, governado por Geraldo Alckmin, que disputa a vaga de candidato a presidente pelo PSDB. Lula disse que seu governo repassou R$ 2 bilhões para cuidar dos pobres em São Paulo e lembrou que, na maioria dos estados, os governadores não têm programas sociais. O governador de São Paulo acusou o presidente de fazer uso eleitoreiro dos recursos públicos.

Lula afirmou que governadores que recebem recursos federais para obras e programas deveriam citar o papel do governo federal. ?Não são todos os governadores que colocam as coisas que o governo federal faz na sua propaganda ou nos seus discursos. Há muitos espertos no Brasil que recebem dinheiro do governo federal e fazem propaganda na televisão como se o dinheiro fosse deles, como se a obra fosse deles, sem citar sequer o dinheiro do governo federal. Quem tem caráter fala a verdade, quem não tem caráter mente?, disse Lula em seu discurso.

Apesar das críticas, o presidente disse que não gosta de fala mal dos adversários. O presidente também comentou números da pesquisa Datafolha, segundo relatos do governador do Piauí, Wellington Dias (PT). De acordo com o petista, o presidente disse que o povo está reconhecendo as ações do governo e que a hora é de cautela. Apesar de falar aos jornalistas que não estava fazendo campanha, o presidente disse que um homem público não precisa de época de eleição para fazer campanha. ?Ele faz campanha da hora em que acorda à hora em que dorme, 365 dias por ano. Se ele não fizer, os adversários farão, porque os adversários só se incomodam quando você está fazendo as coisas certas?, disse. E completou: ?Quando eu terminar o meu mandato, eu não vou morar no estrangeiro, eu vou morar e morrer no meu país?.

Mais tarde, em Imperatriz, o presidente criticou o governo passado, que não teria investido tanto quanto ele em programas sociais. Ao discursar no lançamento da pedra fundamental do novo campus da Universidade Federal do Maranhão, Lula disse que os presidentes da República precisam ter humildade e perceber que o dinheiro não é deles, e sim do povo, e transformar esses recursos em benefícios.