O Carnaval de São Paulo surpreendeu na primeira noite de desfile, sexta-feira. Mesmo com verbas reduzidas, as escolas de samba conseguiram se superar e entraram na avenida esbanjando luxo. Em várias agremiações, o corpo à mostra deu lugar, neste ano, às fantasias. O tempo bom ajudou a festa a ganhar um brilho especial. Uma chuva fraca apareceu apenas no início da noite, antes das apresentações, e os foliões puderam aproveitar ao máximo.

São Paulo – O desfile começou atrasado, mas não por conta da Mancha Verde, a primeira que entrou na avenida. O desfile estava marcado para começar às 22h30, mas teve início pouco depois das 23 horas. Os jurados, que chegaram de ônibus ao sambódromo, ficaram presos no trânsito. O nervosismo aumentou entre os passistas da Mancha Verde, mas a tranqüilidade veio logo depois, com a empolgação do público, que se levantou na arquibancada para ver a escola ligada à torcida do Palmeiras passar.

O final do desfile da Mancha não foi muito organizado e a escola acabou perdendo pontos depois de ultrapassar em um minuto o tempo regulamentado, de 65 minutos de desfile. Houve confusão entre os próprios integrantes da escola. Problemas técnicos com o terceiro carro alegórico também prejudicaram o desfile da Mancha.

Mas a escola não foi a única a perder pontos. A Imperador do Ipiranga entrou na avenida com um carro a menos. O veículo quebrou e não pôde ser colocado na passarela, formando um pequeno buraco entre uma ala e outra. A escola não empolgou muito o público. O samba-enredo – bem diferente de 2004, quando contou a história do próprio bairro – acabou não animando os foliões nas arquibancadas.

Vai-Vai e Mocidade Alegre fizeram um desfile tecnicamente correto, segundo especialistas. A bateria da Vai-Vai levantou a arquibancada no Anhembi na madrugada. A escola, a terceira a entrar na avenida, empolgou o público apostando na imortalidade. Com o enredo "Eu também sou imortal", a Vai-Vai procurou questionar o destino da alma humana na visão das mais diversas crenças. O carnavalesco destacou as cores da escola. Bateria, baianas, crianças e a velha guarda estavam com o tradicional preto e branco. O samba teve uma melodia diferente, não seguiu o modelo tradicional.

Neste ano, a ala das crianças da Vai-Vai teve 150 integrantes. Elas estavam vestidas de bruxos famosos de lendas e da literatura. A alquimia e a ciência também foram retratadas em um carro seguido por alas que mostraram os avanços no campo da medicina. O quinto e último carro falou da imortalidade da própria escola, que completa 75 anos de vida em 2005. Entre os destaques estava a apresentadora Eliana, que foi homenageada pelos 10 anos na escola. Luciana Gimenez foi muito aplaudida pelo público quando passou em frente às arquibancadas.

Escola desfila com ritmo do Pará

São Paulo – O ritmo paraense tomou conta do sambódromo de São Paulo com o desfile da Acadêmicos do Tatuapé. A escola, uma das mais antigas de São Paulo, levou para a passarela do samba o tema "A heróica história de nossa história. Berço cultural de nosso povo, Pará". Não houve uma manifestação tão grande do público como ocorreu com a Vai-Vai, mas a escola teve uma boa apresentação.

A Mocidade Alegre, campeã do Carnaval 2004, entrou na avenida na primeira noite de desfile disposta a lutar pelo bicampeonato. A Mocidade homenageou Clara Nunes com o tema "Clara Claridade… Um canto de luz no Ylê da Mocidade". A intenção da escola era falar do legado de uma cantora que sempre exaltou o Carnaval. A Mocidade terminou o desfile aos 63 minutos, sem correria e com uma bela apresentação. Nani Moreira, madrinha da bateria, mais um vez foi a sensação da ala. Nani representou o Estado de São Paulo na bandeira do Brasil.

Globeleza

A sexta escola de samba a desfilar em São Paulo foi a Acadêmicos do Tucuruvi, que teve como madrinha da bateria a passista Valéria Valenssa, que se tornou conhecida como "Globeleza". O samba-enredo da escola foi "Samba, sombra e água fresca – Cantareira, o pulmão verde de São Paulo".

Já amanhecia em São Paulo quando a Rosas de Ouro entrou na avenida. A arquibancada não conseguiu ficar sentada. O céu azul contrastou com a cor da escola, que homenageou este ano o seu próprio símbolo. Apesar de o samba-enredo dar destaque a Iemanjá, uma divindade do candomblé, as rosas ganharam destaque no desfile. Cerca de 300 quilos de pétalas de rosa foram jogados na pista. Apesar do horário, quase ninguém deixou o sambódromo e as arquibancadas continuaram cheias. A apresentadora Adriane Galisteu foi um dos destaques na avenida.

O desfile encerrou às 8h40 de ontem com a Império da Casa Verde. O desfile ficou dentro do tempo regulamentado. Ao todo, foram 3.500 componentes divididos em 23 alas. Sheila Mello foi a imperatriz da bateria. Um cenário nada animador, a fome, foi representado pela Império com os foliões vestidos de preto e com máscaras de caveira. A escola que chegou perto do título no ano passado, terminando em terceiro lugar, trouxe, desta vez, o tema "Brasil, se Deus é por nós, quem será contra nós".

O início do desfile teve um tom futurista, aberto por uma nave espacial. A globalização e os seus efeitos foram representados no carro "Pára o mundo que eu quero descer". Outra alegoria trouxe super-heróis acima do peso, para contrastar a fome e a obesidade.

Gilberto Gil cai na folia da capital baiana

Salvador – O ministro da Cultura, Gilberto Gil, deixou de lado as preocupações da pasta e caiu na folia na noite de sexta-feira, comandando, no circuito Barra-Ondina, na orla de Salvador, o Trio Expresso 2222. Estava acompanhado da filha Preta Gil, do guitarrista Davi Moraes e da percussionista Lan Lan.

A cantora Daniela Mercury juntou-se à trupe, quando o trio passou pelo camarote dela. Gil e Daniela emocionaram os milhares de foliões que seguiam o trio (que não usa cordas e toca para o povo), cantando um velho sucesso do ministro-tropicalista, Super-homem. O Trio Expresso 2222 foi apenas uma das grandes atrações da noite de sexta no circuito Barra-Ondina, animado também pelas bandas Chiclete com Banana e Timbalada. No centro, a avenida foi dominada pelo desfile do bloco afro Olodum, comemorando 25 anos de fundação.

Nem tudo foi festa, entretanto, no Carnaval da capital baiana. Vários casos de agressões ocorreram entre a noite de sexta e a madrugada de ontem e 28 casos foram registrados no Pronto-Socorro do Hospital-Geral do Estado. Uma das vítimas, Jorge Luís Alves, de 20 anos, envolveu-se numa briga no Largo do Farol da Barra no momento em que passava um trio elétrico, quando foi agredido por várias pessoas. Quando estava desacordado, um dos agressores cravou um espeto de churrasco nas costas de Alves, que foi medicado e não corre risco de morte. Na Praça Castro Alves, centro, um turista inglês identificado apenas pelo apelido de Dick, de 30 anos, foi cercado por um grupinho de foliões e espancado, violentamente, dando entrada no PS com ferimentos por todo o corpo. Luís Henrique da Conceição, de 28 anos, apanhou tanto, também na Praça Castro Alves, que teve fraturas graves na mandíbula e nariz. Nenhum dos agressores foi identificado pela polícia.

Cordão da Bola Preta arrasta milhares no Rio

Rio – Milhares de foliões engrossaram, desde o início da manhã de ontem, o Cordão da Bola Preta, no centro do Rio. Uma das tradições do Carnaval carioca, o bloco esquentou os foliões na concentração e só partiu em desfile pela Avenida Rio Branco depois das 10 horas. Entre os que seguiram o carro de som, a irreverência marcou os trajes, a maioria combinando estampas de bolas brancas e pretas.

Também houve muita criatividade entre os que produziram fantasias especialmente para o tradicional bloco, que completa, em 2005, 86 anos.

Na ponta da língua, sambas-enredo e a velha marchinha característica do bloco. Pouco antes do Carnaval, uma exposição sobre a longevidade do Bola Preta foi aberta na Biblioteca Estadual Celso Kelly, no Centro, e ficará aberta até o dia 31 de março. Na zona sul, o dia ontem foi da Banda de Ipanema, conhecida pelas animadas drag queens, e o Bloco dos Barba, em Botafogo.

Galo da Madrugada

Em Recife, o clube de máscaras Galo da Madrugada saiu majestoso e irreverente, com muitos fogos, às 10 horas (horário local) de ontem. Três carros alegóricos, 30 trios elétricos e muita criatividade e animação de foliões que desde o nascer do dia começaram a se posicionar ao longo de um percurso de quatro quilômetros a ser percorrido pela agremiação.

Muitos blocos e troças, nascidos a partir do Galo, a exemplo do Pinto do Galo, também fizeram as festas antes, durante e ao longo do desfile do seu inspirador -que foi às ruas pela primeira vez há 27 anos. A saída do Galo incluiu aparato policial e revistas de foliões nos principais portos em torno da área central.