Brizola morreu ontem no Rio de Janeiro.

Rio de Janeiro, 22 (AE) – O presidente nacional do PDT, Leonel Brizola, morreu na noite desta segunda-feira (21), aos 82 anos, de infarto agudo do miocárdio. Ele estava internado no Hospital São Lucas, em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro, bairro onde morava. Brizola tinha uma infecção pulmonar e foi submetido a uma série de exames. Por volta das 18 horas, quando já estava liberado, o ex-governador do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul teve uma parada cardiorrespiratória e foi transferido para a emergência do hospital, onde recebeu sedativos. Os médicos, então, tentaram reanimá-lo, mas Brizola não reagiu.

O diretor da Unidade Cárdio-Intensiva do São Hospital São Lucas, Marcos Batista, informou que a morte de Leonel Brizola ocorreu às 21h20. De acordo com o médico, durante a tentativa de reanimar o ex-governador, foi implantado um marcapasso. Os parentes de Brizola presentes não falaram com a imprensa até o fechamento da edição.

Ao tomar conhecimento do falecimento de Brizola, a governadora do Rio de Janeiro, Rosinha Matheus (PMDB), decretou luto oficial de três dias no Estado. Rosinha Matheus abandonou o lançamento do filme “Pelé Eterno”, no Teatro Municipal, no centro do Rio, e seguiu para o hospital. “Brizola, para nossa família, foi muito mais do que um político. Foi um amigo, orientador, alguém que nos ensinou os valores positivos da política, como o amor pelo Brasil e pelo seu povo”, disse ela emocionada.

O secretário de Segurança Pública do Rio, Anthony Garotinho, marido da governadora comentou: “Fiquei surpreso porque ontem (20) à noite estive na casa do Brizola com Rosinha, Clarissa (filha de Garotinho), Moreira Franco, e ficamos mais de duas horas conversando. Ele estava no quarto deitado, com soro, mas muito animado com o futuro do Brasil. Foi uma conversa muito emotiva, muito emblemática, quase uma reunião de despedida.” Garotinho contou que o encontro durou quase três horas – das 18 horas às 20h45. Ele ainda conversou com o médico de Brizola. Segundo Garotinho, o médico disse que Brizola tinha passado muito frio no Uruguai e se sentiu resfriado. O médico relatou ainda que o ex-governador cometera extravagâncias alimentares. “Ele tinha comido mocotó e parrija, uma comida típica gaúcha. Aí teve uma indisposição”, disse Garotinho.

Anthony Garotinho ganhou projeção na política fluminense na legenda criada por Brizola, ao eleger-se governador do Estado do Rio em 1998 em coligação com o PT. Após anos de rompimento, os antigos aliados estavam em fase de reaproximação.

O deputado federal Moreira Franco (PMDB), ex-adversário político de Leonel Brizola, a quem derrotou na eleição para o governo do Estado de 1986, esteve no hospital. Na saída, revelou que tivera uma reunião na véspera na casa do presidente do PDT, junto com Rosinha e Garotinho. “Ele já estava de cama, mas muito entusiasmado. Conversamos muito sobre as eleições municipais.”

O arquiteto Oscar Niemeyer, que apesar de comunista sempre participou das campanhas políticas de Brizola e é o autor dos dois maiores projetos de seus governos, os Centros Integrados de Educação Popular (Cieps) e o Sambódromo, disse que a morte do ex-governador é uma “perda muito difícil”. “Era um brasileiro nacionalista, que sempre sonhou com um País livre e independente.”

Líder carismático e especialmente querido pela população mais pobre do Rio, a morte de Brizola atraiu dezenas de pessoas para os arredores do Hospital São Lucas logo que as emissoras de rádio e televisão anunciaram sua internação. Um grupo com bandeiras do PDT gritava que as favelas do Rio estavam de luto.

Brizola já está sendo homenageado no site do PDT. “Brizola, sua mensagem permanece”, anunciava o partido.

A assessoria de imprensa do PDT informou que o velório será no Palácio Guanabara, sede do governo do Estado do Rio de Janeiro. O corpo seguirá mais tarde para o Ciep Tancredo Neves, no Catete, onde será homenageado. O sepultamento está previsto para a quinta-feira (24), em São Borja, no Rio Grande do Sul, no jazigo da família. Ele deverá ser sepultado ao lado de sua mulher, dona Neusa, que morreu em 1993.

Lula lamenta a morte de Brizola

São Paulo

– O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem à noite, em São Paulo, lamentar a morte do ex-governador Leonel Brizola. Lula foi informado da morte do presidente nacional do PDT no Rio, quando jantava com o presidente da Colômbia, Alvaro Uribe, no Hotel Sofitel, em São Paulo, pelo chefe do cerimonial da presidência, Paulo Campos. Imediamente, Lula pediu que fosse decretado luto de três dias e que o Palácio do Planalto emitisse uma nota de pesar.

Na saída do jantar, Lula disse: “É evidente que lamento profundamente a morte de uma personalidade política como a do ex-governador Leonel Brizola. Todo mundo sabe que mesmo nos momentos de divergências eu sempre nutri por ele um profundo respeito e admiração por sua história política. Acho que ele foi um personagem da nossa história durante mais de meio século. Acho que ele é uma figura de muita importância para o Brasil e nós perdemos uma referência importante da nossa política”, disse Lula, ao deixar o Hotel Sofitel onde passou o dia reunido com os presidentes da Namibia e da Colômbia.

Lula não respondeu quando os jornalistas lhe perguntaram se ele iria ao velório no Rio. Hoje, Lula tem uma reunião de trabalho com o presidente da Colômbia e empresários brasileiros e colombianos no Hotel Hilton, em São Paulo e ao meio dia tem viagem marcada para Nova York.

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Nelson Jobim, comentou a morte do ex-governador. “Brizola foi uma pessoa de importância incontestável na história recente do País. Um político controverso que, muitas vezes, se alimentava de polêmica e teve papel destacado no processo de redemocratização do País.” O ex-prefeito Paulo Maluf (PP), pré-candidato a prefeito de São Paulo afirmou que “Brizola lutou pela democracia, fez política por 60 anos, disputou várias eleições e era um homem de grande perseverança. Era um lutador e deixa, principalmente, esse evento de perseverança. Vai fazer falta na política brasileira.”

Uma das conseqüências da morte de Brizola em Brasília, foi o adiamento da votação da Medida Provisória do salário na Câmara Federal, pela segunda vez, depois de ter sido alterada no Senado. Em seu lugar, a Câmara dos Deputados vai realizar uma solenidade em homenagem ao ex-governador Leonel Brizola. A votação da MP do mínimo deve ficar para amanhã ou talvez até a próxima semana.

‘Sinto uma tristeza profunda’, lamenta Maia

Rio, 21 (AE) – Repercussão no Rio da morte do presidente nacional do PDT e ex-governador do Rio, Leonel Brizola:

César Maia (PFL), prefeito do Rio – “Sinto uma tristeza profunda de quem foi a base de minha formação pública e que, mesmo depois dos caminhos ideológicos distintos, continuou me honrando com sua amizade. Fecham-se dois ciclos: um dos maragatos da revolução federalista de 1893 – dos lenços vemelhos no pescoço. E outro – trabalhista – desde os anos 30, com Vargas. Nestes dois ciclos não há sucessor.”

Marcelo Alencar (PSDB), ex-governador do Rio – “Aprendi muito com ele porque era um bom exemplo de como pessoas devem agir e serem fiéis a si mesmas. Era um homem de luta e no fundo tinha um espírito revolucionário. Quando não tinha um motivo para brigar, ele arrumava um. Fica a imagem positiva do que ele foi e a forma como fez e se dedicou aos pobres do Brasil. Apesar de estarmos separados, havia uma aproximação entre nós.”

Luiz Paulo Conde (PMDB), vice-governador do Rio – “É uma perda irreparável. Nós podemos discordar de algumas idéias do Brizola, mas não podemos deixar de reconhecer que era um democrata. Perdemos um grande brasileiro. Tinha amizade com ele, mas não era pública. Apesar de ter 82 anos, ele nunca se abateu. Nas últimas eleições ele me ligou e disse: ‘Nós vamos trocar farpas, mas serão apenas farpas. Depois das eleições, tudo voltará ao normal’.”

José Gomes Talarico, ex-deputado do PTB – “É uma desgraça. Ainda mais na difícil situação social que o País atravessa. É uma desgraça para o povo e para seus amigos. Não sei como nós vamos suportar.”

Beth Carvalho, cantora – “É o maior líder que este País já teve. O único que nunca se curvou ao imperialismo americano. Leonel Brizola está no meu coração e de todo o patriota. Foi o homem que fez a maior homenagem ao samba, quando construiu o sambódromo. Teve sempre uma preocupação com a educação. O Ciep foi o projeto mais bonito que já existiu.”

Pelé, jogado de futebol – “É lamentável, mas Deus sabe o que faz. Estava com a governadora (Rosinha Garotinho) vendo o filme (pré-estréia de ‘Pelé Eterno’, no Teatro Municipal) quando ela soube que ele havia sido internado e teve que sair às pressas. É triste, mas vida que segue.”

Chico Alencar, deputado federal (PT) – “Brizola está certamente no panteão dos homens de bem do País. Simbolizou a esperança de democratização do Brasil, durante o regime militar, e recebeu meu primeiro voto para uma eleição majoritária (governador do Rio, em 1982). Brizola sempre manteve a juvenil rebeldia e foi sensível aos problemas dos mais pobres.”