A noite de quinta-feira marcou o primeiro tiroteio entre policiais militares e traficantes de drogas no Morro Santa Marta, em Botafogo, na zona sul, desde a instalação na favela da primeira Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Rio, em 2008.

A UPP é, até agora, considerada modelo pelo governo estadual.

Os confrontos entre criminosos e policiais, constantes em comunidades com UPPs, não ocorriam no Santa Marta desde a implantação pioneira do programa de polícia pacificadora. É mais um indicativo de que o projeto enfrenta uma crise inédita nestes sete anos.

De acordo com a Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP), policiais militares foram alvo de disparos no Beco do Jabuti. Os agressores fugiram. O caso é investigado pela 10ª Delegacia de Polícia.

No início de março, já ocorrera tumulto entre moradores da favela e PMs da UPP, que lançaram bombas de efeito moral e spray de pimenta. De acordo com moradores, a confusão começou após policiais terem abordado um jovem com violência. Houve queixa formal de lideranças comunitárias contra um grupo de policiais que estariam sendo truculentos com moradores.

A crise no projeto das UPPs tem se espalhado por favelas que a Secretaria de Segurança chegou a considerar pacificadas. No último dia 8, traficantes do Comando Vermelho (CV) partiram dos morros do Fallet, Fogueteiro, em Santa Teresa, no centro e Turano, em Rio Comprido, zona norte, rumo à vizinha comunidade da Coroa, dominada pela facção Amigos dos Amigos (ADA). Quatro pessoas morreram e cinco ficaram feridas.

As trocas de tiros também vêm sendo constantes nos complexos da Penha e do Alemão, na zona norte, e na favela da Rocinha (zona sul). No Complexo da Maré, que deve receber UPPs até o primeiro trimestre do ano que vem, também há confrontos, mesmo com presença do Exército desde abril de 2014.

A entrada principal da Santa Marta fica na Rua São Clemente, endereço de prédios de classe média e por algumas escolas tradicionais, como a Alemã Corcovado e o Santo Inácio. Antes de pacificada, a favela era controlada pelo CV e local de confrontos violentos. Com a UPP, passou a receber turistas e programas culturais. Tem 3,9 mil moradores, segundo o Censo de 2010 do IBGE.

O morro começou a ser ocupado pela PM em 20 de novembro de 2008, quando foram fechados os pontos de vendas de drogas. Em 19 de dezembro daquele ano, o Santa Marta recebeu 120 soldados recém-formados em policiamento comunitário, com aulas de relações interpessoais e direitos humanos.

Futuro

Especialistas se dividem em relação aos danos provocados por esse primeiro tiroteio à imagem da política de pacificação. “Acho que é pontual, porque ocorreu em uma vez só num período longo de tempo. Em qualquer bairro pode ocorrer tiroteio, inclusive em Copacabana. Não vejo como um único tiroteio possa representar o fim de uma política”, disse Michel Misse, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista em segurança pública.

Já a socióloga Julita Lemgruber, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes, diz que as UPPs são feitas para “remediar” efeitos desastrosos de uma política de segurança equivocada. “Quando a gente tem como pano de fundo uma política de guerra às drogas fracassada, a gente vai fazer tentativas para remediar o problema”.