Era véspera do Natal. O músico pernambucano Israel de França foi tomar uma cerveja com outro amigo brasileiro num bar em Granada, cidade do sul da Espanha, onde o violinista mora há 22 anos, mas a noite acabou em novela.

Os garçons do bar, “frequentado por famílias, idosos, crianças e com uma clientela fixa”, segundo o dono do local, não gostaram da atitude dos dois amigos brasileiros. “Os funcionários me ligaram porque havia no local dois homens bêbados que estavam falando muito alto e atrapalhavam nossos clientes. Eles me ligaram de novo, quando mais uma mesa foi embora do bar. Aí eu falei para os garçons chamarem a polícia e resolvi ir para lá,” disse Antonio, o proprietário, por telefone à reportagem.

A polícia municipal não demorou para chegar e achou França e o amigo no balcão do bar. “Os agentes nos obrigaram a sair e me meteram num portal de um prédio onde me bateram,” afirma o músico que denunciou os quatro agentes responsáveis da agressão. Para ele, a atuação foi completamente ilegal pois, segundo lembra, não foi questionado nem identificado corretamente.

“Poderiam ter me levado para a delegacia e feito tudo direitinho como uma policia educada,” lamenta França que acredita que os agentes atuaram assim por racismo. “Talvez estavam influenciados pela situação de crise que vive a Espanha,” diz França, que toca o violino na Orquestra da cidade.

A polícia, no entanto, nega a versão do brasileiro e acusa ele de posse de arma branca e desacato à autoridade. O assessor da polícia afirma que o músico “nunca foi agredido”, que a intervenção não demorou mais do que dez minutos e que o músico recebeu a polícia com insultos. “Ele estava bastante afetado pelo álcool. Os policiais levaram ele a um portal para proteger sua intimidade e conseguiram identificá-lo graças ao amigo que pegou a carteira do bolso dele.”

A denúncia da polícia foi o que mais revoltou o músico que pensa agora em voltar para o Brasil com a mulher espanhola e o filho. “Não aguento mais, nunca apanhei no rosto de um jeito tão covarde e agora essas acusações… Jamais levei comigo uma navalha, qualquer pessoa que me conhece sabe disso.”

A assessoria de imprensa do Itamaraty disse que o governo brasileiro pediu às autoridades espanholas investigações sobre a acusação do músico. Conforme França e o Itamaraty, o cônsul-geral adjunto do Brasil em Madri, Cícero Garcia, ouviu a versão dele. Depois se reuniu com a chefia da polícia de Granada e transmitiu o pedido do governo brasileiro para que seja feita uma investigação “ampla e profunda” do caso.

No Brasil, o secretário-geral do Itamaraty, embaixador Ruy Nogueira, se reuniu com o embaixador da Espanha no Brasil para pedir rigor nas investigações.