Buenos Aires

– Em sua primeira viagem internacional como presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, fez um discurso contundente em defesa da soberania da América Latina, criticou os especuladores estrangeiros e propôs uma agenda entre o Brasil e Argentina para a “reconstrução” do Mercosul. Ao lado do presidente da Argentina, Eduardo Duhalde, Lula disse que a parceria estratégica entre os dois países deve ir além da união aduaneira para que, no futuro, a região possa ter até um Parlamento e uma moeda comum, a exemplo da União Européia.

Antes do pronunciamento, Lula teve um encontro reservado de 40 minutos com Duhalde, na residência oficial Quinta de Olivos. Ficou decidido que no dia 14 de janeiro de 2003, equipes dos dois governos vão se reunir, em Brasília. A idéia de acelerar o trabalho antes mesmo de saber quem será o novo presidente da Argentina (já que a eleição está marcada para abril), tem como objetivo firmar uma agenda para a definição de mecanismos que possibilitem a estabilidade monetária, de controle da inflação e de crescimento econômico, além da atuação nos organismos multilaterais.

O resgate dos ideais do Mercosul e uma integração que inclua agendas políticas e econômicas para que a região se fortaleça como bloco nas negociações com os Estados Unidos, a União Européia e a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) foram os dois assuntos que marcaram o pronunciamento de Lula. “Quantas vezes, de duas décadas para cá, vimos a economia da região ser desorganizada pela inflação ou mergulhar em recessões de dolorosas conseqüências sociais?”, perguntou o presidente eleito, ao defender “um novo ciclo de crescimento”.

No pronunciamento de 20 minutos, Lula mostrou que quer se credenciar como líder do bloco regional para as negociações bilaterais entre o Mercosul e os Estados Unidos, para onde segue no próximo dia 10, paralelamente à Alca, considerada pelo PT como “um projeto de anexação”. Ele não irá mais para a Europa antes da posse, porque, de acordo com sua assessoria, não terá tempo.

Lula admitiu que tanto a proposta de Parlamento do Mercosul como a de uma moeda comum ainda são um sonho. Mas, para ele, diante das dificuldades que a atual ordem econômica e a política mundial criam aos países em desenvolvimento, o fortalecimento do Mercosul é uma espécie de tábua de salvação.

Após o encontro reservado, Lula e Duhalde se reuniram à portas fechadas com suas equipes de trabalho. Pela comitiva brasileira falaram o senador eleito Aloizio Mercadante (SP); o secretário de Cultura da Prefeitura de São Paulo, Marco Aurélio Garcia, e o embaixador na Argentina, José Botafogo Gonçalves. Do lado argentino, a exposição ficou a cargo dos ministros da Economia, Roberto Lavagna, e da Produção, Aníbal Fernández, além do chanceler Carlos Ruckauf. “Na conversa, concluímos que a mudança de governo na Argentina não será obstáculo à reconstrução do Mercosul”, disse Mercadante.