Brasília (AG) – A ala do PMDB que realiza a convenção de hoje, num hotel de Brasília, não pretende radicalizar contra o grupo que permanecer com o governo Lula.

A nova maioria que se formou no PMDB tem um objetivo maior do que fazer oposição ao atual governo: é buscar um projeto, ainda vago, de lançar uma candidatura própria nas eleições presidenciais de 2006.

A palavra "independência" uniu num mesmo barco os peemedebistas que eram aliados do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, os segmentos que se desencantaram com o PT nas eleições municipais, e aqueles que acalentam sonhos de disputar a sucessão presidencial, como os governadores Roberto Requião – cujo partido, no Paraná, declarou-se independente do governo federal – e Germano Rigotto (RS), e o secretário de Governo do Rio, Anthony Garotinho.

"Não haverá radicalização, nem vamos querer expulsar deputados e senadores do partido porque apóiam o governo. O que nós queremos é liberdade para construir um projeto próprio", diz Michel Temer, que decidiu se afastar do governo depois de o PMDB ter sido rejeitado na chapa da prefeita de São Paulo, Marta Suplicy.

Esta não é a primeira vez nos últimos anos que o partido tenta construir uma candidatura. As tentativas anteriores com Ulysses Guimarães em 1989 e Orestes Quércia em 1994 fracassaram. Nas eleições de 1998 o partido sequer participou do processo, dividindo-se no apoio à reeleição de Fernando Henrique Cardoso e no apoio ao atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva.

O partido acredita que, lançando uma candidatura, poderá voltar ao poder. Mesmo que seu candidato fracasse, o partido poderá negociar em melhores condições sua participação numa coalizão de governo no segundo turno.

"Candidatura própria não se inventa. É um erro lançar candidatos que não empolguem, como o Ulysses e o Quércia", critica o vice-líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR).

Projeto comum

Mesmo que o partido venha a adotar uma postura de independência agora, integrantes do governo acreditam que ainda há espaço para construir um projeto comum nas eleições de 2006. O fato de o PMDB não assumir uma postura claramente oposicionista é interpretada como uma sinalização de que o diálogo pode ser retomado.

Michel Temer diz que o PMDB não se nega a conversar sobre um governo de coalizão, mas não aceita mais ocupar uma posição periférica. Entretanto, considera que tudo ficou mais difícil agora e que o melhor momento para unir os projetos dos dois partidos foi atirado pela janela em dezembro de 2002.

"Naquela época estavam criadas as condições para que todo o PMDB participasse do governo. Nós estaríamos entrando no começo do governo. O ministro José Dirceu (Casa Civil) chegou a me pedir nomes para os ministérios da Integração e das Minas e Energia. Mas eles preferiram usar os cargos para resolver os problemas internos do PT", lembra Temer.

Relação ainda é próxima

Brasília (AG) – Durante oito anos, no governo Fernando Henrique, o PMDB viveu o mesmo dilema: ser ou não ser governo. Mas o partido nunca se afastou da gestão do tucano, ao contrário do que deve fazer na convenção de hoje.

Nem os tempos mudaram nem o PMDB é outro. Os petistas é que se descuidaram e não ofereceram aos peemedebistas espaços no poder que pudessem contemplar o conjunto do partido. Com apenas algumas de suas alas participando da gestão, foi fácil para aqueles que participaram do governo anterior construir uma maioria pela entrega dos cargos.

"No governo Fernando Henrique participávamos da formulação e do núcleo do poder", lembra o ex-líder Geddel Vieira Lima (PMDB-BA). O desembarque nunca ocorreu no governo Fernando Henrique, porque o partido efetivamente participava da gestão. O PMDB tinha os ministérios dos Transportes e da Integração Nacional.

Além disso ocupava mais de 50 importantes cargos de segundo escalão. Não é o que ocorre agora, quando o partido ocupa uma dezena de cargos de segundo escalão e dois ministérios considerados de segunda linha: Comunicações e Previdência. "Se construir um acordo político direitinho, o resultado pode dar dividendos políticos para todos", resume o líder do partido, deputado José Borba (PR).