Durante todo o ano de 2015, a Polícia Federal dominou os noticiários nacionais. Ao todo, foram cinco grandes operações deflagradas (Pulso, Zelotes, Acrônimo, Andaime e Lava Jato), sendo que outras 16 foram realizadas como novas fases da Lava Jato.

De tanto aparecerem nos jornais, na luta contra a corrupção, o juiz Sérgio Moro e o agente Newton Ishii viraram “ídolos” nacionais, temas de marchinhas de carnaval e memes na internet. Deflagrada em março de 2014, a Operação Lava Jato já prendeu 116 políticos, doleiros, empresários, donos de empreiteiras e ex­diretores da Petrobras, em casos raros da Justiça brasileira.

Entre os nomes de peso estão o pecuarista José Carlos Bumlai, o empreiteiro Marcelo Odebrecht, o expresidente da Andrade Gutierrez Otavio Azevedo, os petistas José Dirceu e João Vaccari Neto, o banqueiro André Esteves, os ex­diretores da Petrobras Nestor Cerveró e Renato Duque, os ex­deputados André Vargas e Luiz Argôlo, entre outros.

Para o especialista Bolívar Moura Rocha, sócio da Levy & Salomão Advogados, a percepção do combate à corrupção aumentou no Brasil nos últimos anos, mas os esquemas de corrupção também. “Boa parte dos casos de corrupção na esfera federal, principalmente, é causada pelo presidencialismo de coalizão, baseado em arranjos políticos entre partidos diferentes, barganhas, ‘toma lá dá cá'”, disse o especialista, em entrevista à ANSA.

Já Alejandro Salas, diretor regional para as Américas da ONG Transparência Internacional, disse que o trabalho da PF, mas também de fiscais e juízes, tem sido “fundamental para o combate da corrupção no Brasil”. “É importante entender que não existe uma fórmula única ou instituição que possa, por si só resolver um problema tão complexo como é a corrupção, algo histórico e parte da maneira de pensar e de agir de muitas pessoas. Além disso, a corrupção está presente em diferentes instituições, em níveis federais e locais”, afirmou.

Para Rocha, o combate à corrupção no Brasil precisa passar por uma adaptação da legislação política eleitoral do presidencialismo de coalizão, aliado a punições efetivas de envolvidos em crimes do tipo. “O que ajuda a combater a corrupção é puni­la. As últimas investidas da Operação Lava Jato, com prisões de parlamentares, foram marcantes e geram uma mudança de percepção e relevância histórica do que está acontecendo”, ressaltou.

“O Brasil terá dado um salto civilizatório incrível quando isto for visto daqui um tempo” e abrirá “espaço para uma nova era de lideranças políticas”. “Dar castigo aos corruptos é de extrema importância e é exatamente isto que a PF está fazendo no Brasil. É necessário punir os culpados para que não desfrutem do que roubaram do público e para que outros funcionários, políticos e empresários recebam a mensagem”, disse Salas.

O diretor da Transparência Internacional, porém, afirmou que há uma série de medidas extras a seres tomadas contra a corrupção, como oferecer “melhor educação e propagação de valores éticos”. “É preciso fazer grandes esforços para reformar instituições, através de leis, para que se possa deter os casos de corrupção antes que eles aconteçam. Isso requer um governo aberto, acesso à informação, participação de cidadãos, transparência nos financiamentos políticos”, pontuou.

Para a pesquisadora Maira Martini, que também atua na ONG, o Brasil já avançou muito em termos de transparência, de controle e de combate à corrupção. “Medidas como a criação do Portal da Transparência e a adoção de leis como a Lei de Acesso à, Informação, Lei Anticorrupção que trata da responsabilização administrativa e civil da pessoa jurídica pela prática de atos contra a administração pública, possibilitando a punição de empresas envolvidas em corrupção, regulamentação de conflito de interesse e tráfico de influências no âmbito federal, são essenciais para garantir mais transparência e prevenir e detectar casos de corrupção”.

 “Agora o Brasil precisa adotar as medidas necessárias para que as leis aprovadas recentemente sejam cumpridas e para que pessoas e empresas envolvidas em corrupção sejam punidas. O país tem visto uma quantidade expressiva de casos de corrupção sendo descobertos ­ a população está à espera de uma resposta do judiciário. Acabar com a impunidade é fundamental na prevenção de futuros casos de corrupção”.