Terminou em confusão a manifestação em que cerca de 500 pessoas, entre alunos, residentes, profissionais de saúde e pacientes protestavam, na manhã desta sexta-feira (30), contra a falta de recursos no Hospital Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Homens do Batalhão de Choque da Polícia Militar (PM) lançaram bombas de gás lacrimogêneo contra os manifestantes.

Durante o protesto, foram fechadas duas faixas da Linha Vermelha via expressa que liga o centro da cidade aos municípios da Baixada Fluminense.

A estudante do curso de Medicina Larissa Silva ficou ferida e reclamou da atuação dos policiais. "A gente viu quando eles estavam vindo na nossa direção, mas não podíamos imaginar que usariam bombas de efeito moral. Eles jogaram na nossa direção, pegou na minha cabeça, no meu braço, na minha perna, queimando. Uma fumaça branca que arde muito".

O professor Roberto José de Lima, da Faculdade de Medicina, que também participou do protesto, classificou de vandalismo a resposta da polícia. "O ato feito aqui foi covarde. Estamos defendendo organizadamente a educação, a juventude, uma universidade democrática, e não para sermos submetidos a esse ato de vandalismo", reclamou.

Com o lançamento das bombas, houve pequena dispersão dos manifestantes, que, em seguida, voltaram a ocupar as faixas, alguns permanecendo sentados na pista. A via foi totalmente desobstruída depois de 35 minutos.

Questionado sobre a necessidade de uso de bombas de efeito moral o comandante do Batalhão de Choque, tenente-coronel Carlos Eduardo Milagres, disse que não acompanhou a movimentação desde o início e que, portanto, precisava apurar o que havia acontecido. "Não posso responder pelo que aconteceu antes. Preciso primeiro verificar o que aconteceu", afirmou Milagres, durante as negociações para retirada dos manifestantes.

Segundo o chefe do Serviço de Anestesia, Leonel Pereira, o hospital vive uma crise de abastecimento absoluta. De acordo com ele, faltam desde materiais simples, como papel higiênico e álcool, até insumos de mais alta complexidade, como transdutores de pressão. "Para onde você apontar vai faltar alguma coisa", enfatizou.

O diretor da unidade, também conhecida como Hospital do Fundão, Alexandre Pinto Cardoso, informou que o déficit mensal é de R$ 600 mil. "E isso vem se acumulando porque os custos do hospital aumentam muito mais do que o volume dos recursos que recebemos". Cardoso defendeu a abertura emergencial de concursos para suprir a falta de profissionais. Ele disse que, atualmente, cada mês, R$ 1,3 milhão que fazem parte da verba de custeio da unidade são usados no pagamento de profissionais terceirizados.

Alunos e profissionais das unidades de saúde das Universidades Estadual (Uerj) e Federal do Estado Rio (Unirio) fizeram uma caminhada na manhã de hoje pelas ruas do bairro do Maracanã, na zona norte do Rio, também para protestar contra a situação dos hospitais ligados às unidades.

O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, que foi aluno do Hospital do Fundão, reconheceu as dificuldades financeiras enfrentadas pelos hospitais universitários, mas ressaltou que a pasta repassa anualmente recursos significativos, totalizando R$ 1,5 bilhão, às 47 unidades, ligadas ao Ministério da Educação. "Isso se resolve com mais recursos, mas também com mais eficiência de gestão", disse nesta sexta ao participar de um evento na sede da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio.

A assessoria de imprensa do Ministério da Educação informou que não existe previsão de novas contratações, nem de aumento no repasse de recursos para os hospitais universitários.