Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República
Lula visitou ontem o vice, José Alencar,
que se recupera de uma cirurgia na visícula.

São Paulo  – Pela primeira vez depois de 24 anos, o PT poderá chegar às urnas como vidraça de denúncias de corrupção, na avaliação de intelectuais ligados ao partido e da oposição ao governo. Para os estrategistas da campanha, como o publicitário Duda Mendonça, no entanto, ainda haverá muito espaço de manobra para evitar que o PT perca sua histórica aura da ética em função do caso Waldomiro Diniz.

Duda tem dito a sua equipe que conta com dois fatores: o tempo até as eleições e o fato de as campanhas municipais adotarem uma linha propositiva e pragmática. “Talvez o PT não seja apenas vidraça, mas também latrina nas próximas eleições. Tem sido demonstrado que o partido tem uma ligação quase que estrutural com os jogos”, afirma o filósofo José Arthur Gianotti, ligado ao PSDB.

Ligado ao PT, o historiador Jacob Gorender, autor dos clássicos O escravismo colonial e Combate nas trevas, avalia que o partido já entra nas eleições com as vidraças estilhaçadas, mas considera que “os vidros ainda poderão ser repostos”, desde que seja feita uma depuração interna, deixando claro que a sujeira não irá para baixo do tapete: “Se houve este caso, de um aventureiro, um trambiqueiro, conseguir galgar cargos no PT do Rio e de Brasília, pode haver outros casos. Não dá para o PT sair dizendo que não houve nada”.

Não agressão

Ciente de que o caso Waldomiro será usado eleitoralmente pela oposição contra as candidaturas petistas, o presidente do PT, José Genoino, já começou a articular com os partidos da base um pacto de não-agressão nos municípios em que a aliança nacional não puder ser reproduzida.

Mas já enfrenta algumas resistências. O presidente do PMDB, deputado Michel Temer (SP), admite que terá dificuldades para impor uma regra desse tipo em estados onde as duas legendas vivem em pé de guerra. “Nas disputas municipais, as peculiaridades locais falam mais alto. No Rio Grande do Sul, por exemplo, é o PT que ataca o governador Germano Rigotto. Como poderei pedir para que o partido não reaja?”, justifica Temer.

O presidente do PTB, deputado Roberto Jefferson (RJ), avalia o estrago da denúncia: “Não dá para julgar o PT pelo caso Waldomiro, mas o episódio quebra a mística de que o partido era o único puro na política e faz crescer o discurso da oposição. Agora, o PT não é mais cotó para apontar o rabo dos outros”.

Aliados minimizam os efeitos da crise

São Paulo  – Para os estrategistas da campanha eleitoral do PT, os efeitos do escândalo Waldomiro Diniz não serão sentidos nas eleições, pois as campanhas não serão federalizadas, nem terão um tom plebiscitário para o partido. Além disso, até a largada eleitoral, em junho, haverá um ambiente político diferente do atual, de modo que a dimensão do escândalo esteja reduzida.

“Avaliamos também que, até lá, o governo já terá mostrado mais resultados na área social”, afirmou um dos integrantes da equipe do publicitário petista Duda Mendonça.

O difícil será sair da imobilidade, diante da complicação em que o governo se meteu com os próprios aliados, na opinião do sociólogo Chico de Oliveira, que deixou o PT no fim do ano passado. “Está claro para todos e os analistas econômicos têm dito que não há perspectivas de crescimento econômico”, considera ele.

Já o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) descarta qualquer possibilidade de desgaste do partido. Ele acredita que a medida provisória proibindo os bingos, e outras “medidas cirúrgicas” poderão esclarecer que o PT ainda merece o título de partido da ética. Entre as medidas, Suplicy quer que o Chefe da Casa Civil, José Dirceu, vá ao Congresso se explicar sobre o caso. “É preciso matar a cobra e mostrar o pau e a cobra morta”, disse Suplicy.

Correção

Segundo ele, embora esteja claro que o PT manteve um assessor corrupto, ainda poderá corrigir seu erro devidamente. “Nosso partido e nosso governo são compostos por serem humanos que podem errar. O importante, no entanto, é corrigir os erros. Temos que agir com coerência com o que sempre pregamos. Para nós, a ética sempre foi e é um valor fundamental”, afirmou.

Coligações não devem ser afetadas

As denúncias de corrupção envolvendo o ex-assessor do Planalto Waldomiro Diniz num esquema de cobrança de propina para financiar campanhas de petistas não deverão comprometer, ainda, as coligações que vinham sendo articuladas pelo PT para a disputa municipal. O maior problema poderá ser com o PMDB, um dos maiores parceiros do PT nas últimas eleições.

Os aliados do governo Luiz Inácio Lula da Silva já estão de cabelo em pé com a perspectiva de enfrentar a divulgação de vídeos, gravações e reportagens sobre o escândalo até outubro. A preocupação generalizada é que os petistas perderam uma de suas principais bandeiras, a da ética, e ainda deram um novo discurso para a oposição.

A previsão é de que o efeito Waldomiro Diniz deverá ser sentido sobretudo nas capitais dos Estados, especialmente os mais importantes do Brasil, onde o eleitor é mais politizado e costuma estar atento ao noticiário nacional. No Rio de Janeiro, por exemplo, o caso já entrou na agenda dos pré-candidatos e deverá ser explorado ao máximo por PFL e PSDB, que aproveitarão os holofotes dirigidos para uma CPI instalada na Assembléia Legislativa.

Para analistas, bandeira ética foi arranhada

Brasília 

– Cientistas políticos e aliados ainda divergem sobre os efeitos que o primeiro escândalo da era Lula poderá causar à imagem do PT e do presidente. Todos concordam que é cedo para julgar os efeitos na campanha eleitoral deste ano, mas classificam como a mais grave crise do governo e admitem que a bandeira ética está, no mínimo, arranhada.

Como agravante, esse primeiro escândalo tem aspectos muito parecidos com os que marcaram partidos ou presidentes conservadores, como Fernando Collor (destituído por impeachment) e o governo Fernando Henrique no caso do grampo ocorrido na privatização do sistema de telecomunicações: é um escândalo do tipo patrimonial, na fronteira entre o público e o privado.

Bem diferente da fraude no painel eletrônico do Senado, envolvendo Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) – caracterizada por abuso de poder -ou do episódio que marcou o ex-presidente Itamar Franco ao ser flagrado ao lado da modelo Lilian Ramos sem calcinha no carnaval carioca, o típico escândalo sexual.

Para o cientista político Paulo Kramer, essa decepção vem se somar a outras já experimentadas pelos petistas mais à esquerda no primeiro ano de mandato, com a votação das reformas e a ortodoxia na condução da política econômica.

Bingos tentam, agora, sensibilizar sociedade

A estratégia dos empresários ligados ao jogo de bingo no Brasil mudou. Ao invés de apenas tentar contestar a medida provisória que proibiu o jogo e a utilização de máquinas caça-níqueis no País, agora os bingueiros, em conjunto com a Força Sindical, vão tentar sensibilizar o Congresso Nacional e a sociedade da importância e da lisura da atividade. Na última sexta-feira, numa reunião na Sede da Associação Brasileira dos Bingos (Abrabin) , em São Paulo, os empresários definiram que várias manifestações populares pró-bingo vão ser feitas esta semana nas principais cidades do País.

O representante do Paraná na reunião, Luiz Eduardo Dib, presidente do Sindicato das Empresas Administradoras de Bingo do Estado do Paraná (Sindibingo), contou que bingueiros dos 27 estados da Federação e representantes da central sindical estiveram no encontro. “Nós vamos mostrar os benefícios que a atividade trouxe para o Brasil nos últimos anos. Por sua vez, a Força Sindical está conosco para defender os cerca de quatrocentos mil empregos que a atividade gera”, afirmou.

Dib contou que estão marcadas manifestações públicas em São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis e Brasília. “Na segunda-feira, às 9h30, acontece uma manifestação com cerca de trinta mil pessoas na Avenida Paulista. Na terça e na quarta movimentos da mesma grandeza acontecem no Rio e em Brasília, respectivamente””, explicou.

Dib destacou que hoje ele deve se reunir com representes de bingos catarinenses e gaúchos em Santa Catarina. “Vamos fazer um protesto do Sul do Brasil. Vai ser na segunda-feira à tarde em Florianópolis. Estou indo para lá para definir como será”, afirmou, destacando que espera uma presença de cinco a dez mil pessoas entre envolvidos direta ou indiretamente com o jogo.

CPI

Dib voltou a afirmar que espera a criação da CPI dos Bingos na Assembléia Legislativa para poder provar que não há nada de ilícito com os bingos. “Ainda estou aguardando o secretário Delazari (Luiz Fernando, da Segurança) provar qualquer ligação do bingo com o narcotráfico, lavagem de dinheiro, ou qualquer outra atividade do crime organizado”, salientou. Delazari prometeu apresentar essas provas num dossiê que será entregue está semana em Brasília, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Dib ressaltou que se há alguém corrupto que se prove e se puna. Mas que não se generalize a classe. “Queremos mostrar à sociedade o que o bingo trouxe de bom, desde a geração de emprego até o incentivo ao esporte”, concluiu.