O barulho de cacos de vidro pisados era inevitável aos alunos, funcionários e professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) que entravam hoje pela portaria central do Edifício Reitor João Lyra Filho. Espalhados em incontáveis pedaços, os vidros foram quebrados durante tumulto que envolveu alunos e seguranças na noite anterior. Com a destruição do blindex, de 40 anos, o reitor da Universidade, Ricardo Vieiralves estima prejuízos de R$ 25 mil.

Somado aos danos provocados por outro episódio, uma invasão de alunos à administração central da Uerj, há duas semanas, ele projeta que as cifras cheguem a R$ 100 mil. Vieiralves disse que a universidade, na noite de quinta-feira, viveu um “estado de terror”, que atribui a um confronto iniciado por alunos pertencentes a coletivos de esquerda, desvinculados do Diretório Central de Estudantes. No último dia 22, o reitor suspendeu as aulas por medo de protestos violentos.

Os alunos questionam a versão da reitoria. Afirmam que foram impedidos de entrar na universidade por seguranças, que dispararam contra eles jatos de água provenientes de mangueiras de combate a incêndios. Eles disseram que se sentiram “encurralados”, já que policiais militares estariam lançando bombas de gás lacrimogêneo no estacionamento do câmpus.

“A gente saiu correndo assustado, e nesse momento, entrou na universidade. Ficou um empurra-empurra na porta, os seguranças não deixaram ninguém entrar. Até agora não acredito no que aconteceu, foi uma situação muito absurda”, disse a universitária Carolina Nogueira, de 26 anos.

Os alunos envolvidos no tumulto estavam participando de um protesto contra a destruição de quatro casas na Favela do Metrô, na Avenida Radial Oeste, via próxima à universidade. De acordo com eles, um estudante teria ficado ferido ao ser agredido por seguranças. O nome da suposta vítima não foi divulgado.

O reitor diz que uma ocupação à principal sede da universidade estaria sendo planejada por alunos mais radicais e que os seguranças só reagiram às pedradas – dois ficaram com o rosto ferido. Segundo ele, moradores de rua e “pessoas externas à universidade” foram convocados pelos alunos para atacar a portaria central e participaram do confronto.

“Há duas semanas eles tentaram invadir a administração central. Como não conseguiram, estavam fazendo uma convocação, de que é preciso destruir e invadir a Uerj, por conta das ocupações que ocorrem em outras universidade no Brasil todo”, afirmou.

Ao descartar aumento do número de seguranças no câmpus, onde a Polícia Militar não pode entrar sem autorização da reitoria, Vieiralves disse que não vê condições de diálogo com os integrantes dos coletivos estudantis.

As duas lesões corporais contra os seguranças e uma ocorrência por dano do patrimônio público foram registradas na 18ª Delegacia de Polícia (Praça da Bandeira). A Uerj abriu um inquérito administrativo.

O governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), condenou nesta sexta-feira, 29, o tumulto que causou a depredação da Uerj. “Aluno não depreda o seu local de estudo. A universidade é patrimônio deles. Toda aquela baderna foi promovida por vândalos”, afirmou o governador.

Segundo Pezão, não há atraso de repasse de verbas para a Uerj. O governador disse ainda que a Polícia Militar atuou, a pedido da Prefeitura do Rio, no apoio às demolições na Favela do Metrô, vizinha ao campus da universidade. O tumulto começou quando alunos da Uerj se juntaram a moradores da favela, que protestavam contra as demolições.