A proposta da CPI do Apagão Aéreo do Senado de privatizar 11 aeroportos brasileiros como uma das soluções para o caos aéreo foi rechaçada pelo presidente da Seção de Aviação Civil da América Latina e Caribe, que reúne os sindicatos de trabalhadores do setor, e secretário-geral da Asociasón Argentina de Aeronavegantes, Ricardo Frecia. "Em toda a América Latina, as experiências de privatização de aeroportos são muito ruins", afirmou. "Não acabaram com o colapso nem com a falta de segurança.

Ele exemplificou com a Argentina que, em 1997, privatizou 32 aeroportos. Frecia disse que o grupo Aeroportos Argentina 2000, que ganhou a licitação, tinha como obrigação o pagamento anual de US$ 170 milhões. "Nunca pagou", reclamou. Segundo ele, a proposta mais recente do grupo é a entrega ao governo de 40% das ações, mas há discussão judicial, porque o Ministério Público pretende que o contrato de concessão seja rescindido. Enquanto isso, por não receber os recursos, o governo também não teria investido e a Argentina possui, de acordo com Frecia, apenas cinco radares. "A privatização não é a solução", acentuou.

Coordenador regional da Federação Internacional dos Trabalhadores em Transportes e ex-secretário-geral da Asociason Argentina de Aeronavegantes, Gabriel Mocho Rodriguez disse que a crise aérea não é exclusividade do Brasil e resultou do neoliberalismo dos anos 90, que acabou com várias companhias aéreas públicas. "As privatizações combinadas com a política de céu aberto provocaram o colapso", afirmou. Para ele, as crises vêm se sucedendo na América Latina. "É uma política pensada para transferir o controle do céu dos Estados soberanos para as grandes potências.

Rodriguez, que participa de um debate sobre o transporte como ferramenta para a integração dos povos, disse que os governos não assumiram o seu papel de cuidar da sociedade e manter linhas aéreas com bandeira nacional. "O caos foi provocado para que a população dissesse não às empresas públicas", acusou. Em razão disso, os investimentos em infra-estrutura foram restritos nos últimos anos. "Quando os países começam a recuperar a economia vêem que não há investimentos em transporte, energia, saneamento", ressaltou.

Ao comentar a situação brasileira, Ricardo Frecia disse ser "inaceitável" que controladores de vôo sejam presos ou afastados dos trabalhos, como decorrência da crise. "É preciso diálogo", sugeriu. Ele defende a desmilitarização do setor, que tem estrutura semelhante na Argentina. "Mas só isso não vai resolver", acentuou. "Há falta de pessoal, precisa regulamentação no Ministério do Trabalho e de um plano de carreira profissional que venha ordenar o sistema.