O deputado federal Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo Bolsonaro na Câmara dos Deputados, entrou no foco da opinião pública depois que o nome dele foi envolvido em uma suspeita de irregularidades na compra da vacina Covaxin. Barros foi citado pelo deputado Luis Miranda (DEM-DF) na CPI da Covid, durante depoimento dele junto com o irmão, Luis Ricardo Fernandes Miranda, chefe da Divisão de Importação do Ministério da Saúde, na última sexta-feira (25). A suspeita é de superfaturamento e corrupção.

Luis Miranda disse à CPI que o presidente Jair Bolsonaro citou Ricardo Barros como responsável por irregularidades no contrato de compra da Covaxin. O parlamentar paranaense nega e diz não haver “dados concretos ou mesmo acusações objetivas” contra ele. A CPI avalia chamar Barros para depor e o deputado afirmou neste domingo (27) estar à disposição para prestar esclarecimentos.

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Não é a primeira vez que o nome de Barros é colocado sob suspeita. O parlamentar responde a um processo por irregularidades na aquisição de medicamentos pelo Ministério da Saúde durante o governo Michel Temer. Ele era o titular da pasta à época e chegou a ser denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) em 2019.

Em setembro de 2020, o escritório político dele em Maringá foi alvo de um mandado de busca e apreensão pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Paraná, com o apoio da Polícia Civil. A investigação apura os crimes de lavagem de dinheiro e corrupção para facilitar negócio no ramo de energia eólica. Barros foi citado em colaboração premiada do ex-presidente da Galvão Engenharia no âmbito da Operação Lava Jato, mas sempre negou qualquer irregularidade.

Político experiente com trânsito em governos de direita, esquerda e centro
O histórico de Barros mostra grande capacidade de costurar alianças para ocupar cargos importantes em governos de diferentes partidos. Nas quase três décadas de Brasília, foi indicado a cargos importantes por todos os presidentes desde a era FHC, seja como líder do governo ou como ministro.

Além de ter sido o titular do Ministério da Saúde no governo Temer, foi nome de confiança dos governos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Dilma Rousseff (PT). Antes de ser líder do governo Bolsonaro, Barros já havia ocupado o cargo duas vezes, com FHC e Lula. No governo Dilma, foi vice-líder.

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O parlamentar paranaense, que é formado em engenharia civil e já foi prefeito de Maringá, sua cidade natal, cumpre o sexto mandato como deputado. Ele foi eleito deputado federal pela primeira vez em 1995 e ficou até 2011 no cargo. Voltou em 2015, depois de exercer o cargo de secretário da Indústria, Comércio e Assuntos do Mercosul do Paraná entre 2011 e 2014.

No mandato atual, quem o ajudou a chegar à liderança do governo na Câmara foi seu colega de partido Arthur Lira (PP-AL), atual presidente da Casa e um dos líderes mais influentes do Centrão. Barros já era vice-líder de Bolsonaro na Câmara desde novembro de 2019. No início do governo Bolsonaro, foi candidato avulso à presidência da Câmara, numa tentativa de oposição ao DEM, partido do ex-presidente da Casa, Rodrigo Maia (RJ).

No final de 2019, Barros propôs uma nova Assembleia Nacional Constituinte para “alterar a presunção de inocência”. A iniciativa surgiu após o Supremo Tribunal Federal (STF) vetar a prisão após condenação em segunda instância. O deputado foi também o relator da Lei de Abuso de Autoridade, aprovada pelo Congresso e sancionada por Bolsonaro, que foi alvo de protestos de policiais, procuradores e juízes.

Barros é alvo de processo na Justiça por aquisições de medicamentos

Em dezembro de 2017, quando Barros era ministro da Saúde do então presidente Michel Temer, o Ministério Público Federal (MPF) começou a investigá-lo por improbidade administrativa na compra de medicamentos. O MPF viu irregularidades em oito processos de compra em que o processo de licitação foi dispensado. Em janeiro de 2019, o órgão denunciou o ex-ministro, a empresa Global Gestão em Saúde e outras quatro pessoas.

A suspeita é de que o atual líder do governo Bolsonaro teria beneficiado a Global em contratos. Barros nega e diz sofrer perseguição dos procuradores. O caso tramita na Justiça Federal do DF. Em nota publicada neste domingo (27), Barros disse que já provou sua “conduta em favor do SUS” nesse processo.

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As acusações do MPF foram de favorecimento de empresas, inobservância da legislação administrativa, de licitações e sanitária, prejuízo ao patrimônio público e descumprimento de centenas de decisões judiciais, que teriam sido determinantes para morte de 14 pacientes que não receberam os remédios de que necessitavam.

A Global foi condenada a pagar R$ 20 milhões ao Ministério da Saúde pela omissão na entrega dos medicamentos. A empresa é uma das sócias da Precisa Medicamentos, que intermediou o acordo de compra da Covaxin a um preço 1.000% maior do que o previsto originalmente.

Segundo o jornal O Estado de São Paulo, Barros tem relação próxima com o empresário Francisco Emerson Maximiano, que é sócio-administrador da Precisa. Ainda de acordo com o Estadão, Maximiano enfrenta uma série de processos judiciais por contratos contestados. Apesar disso, a Global e a Precisa não estavam impedidas de firmar contratos com o governo federal.

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Durante sessão da CPI na sexta-feira, o relator Renan Calheiros (MDB-AL) lembrou que foi Barros quem apresentou uma emenda à MP 1026/2021 para liberar vacinas já autorizadas na Índia, país de origem da Covaxin, sem o consentimento da Anvisa. A regra atual permite facilitar o caminho a imunizantes com aval em países como Estados Unidos, China e Europa. A emenda inclui a Índia e foi aceita no relatório sobre a MP, que deve ser votada em breve pela Câmara dos Deputados.

O processo relacionado à Global não é o único problema com a Justiça na trajetória política de Barros. Em outubro de 2019, ele teve o mandato cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR) acusado de comprar votos durante a campanha eleitoral de 2018. A defesa apresentou recurso, e Barros se manteve no cargo. A decisão foi analisada mais uma vez pela Corte, em janeiro de 2020, e a denúncia apresentada pelo Ministério Público Eleitoral acabou rejeitada.

Esposa de Barros foi indicada para cargo com salário de R$ 27 mil por Bolsonaro

Ricardo Barros é casado com Cida Borguetti, ex-governadora do Paraná, com quem tem três filhas. Uma delas, Maria Victoria Barros, que seguiu os passos da família e é deputada estadual no Paraná. O pai dele, Silvio Magalhães Barros (1927-1979), também foi prefeito de Maringá (PR) e exerceu mandatos como deputado estadual e federal.

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Em maio deste ano, o presidente Jair Bolsonaro nomeou a mulher de Barros, a ex-governadora do Paraná, Cida Borghetti, para o Conselho de Administração da Itaipu Binacional.

Segundo o relato de Miranda, Bolsonaro falou sobre as irregularidades na importação da Covaxin e atribuiu o problema a Barros em uma reunião ocorrida no fim de março. Dois meses antes, portanto, da nomeação de Cida Borghetti ao cargo.