Foto: Marcelo Sayão/EFE

Mulher bonita foi o que não faltou nos desfiles.

O segundo dia do desfile do Grupo Especial das escolas de samba do Rio começou com um carro quebrado (o da Porto da Pedra) e terminou com a Portela enfrentando com garra a chuva forte. No miolo, Mangueira, Viradouro, Mocidade Independente de Padre Miguel, Unidos da Tijuca e Império Serrano fizeram espetáculos impecáveis e animados. Deram trabalho aos jurados e trarão polêmica, seja qual for a escola campeã de 2006.

A Unidos do Porto da Pedra, escola de São Gonçalo, cidade dormitório da região metropolitana do Grande Rio, abriu o desfile com pouca sorte. Tinha enredo empolgante, alegorias luxuosas, uma comissão de frente impressionante e 3.270 componentes com o samba na ponta da língua. Mas o principal carro, Mães do Brasil, com mulheres que perderam filhos por causa da violência, quebrou ainda na concentração, e o desfile foi lento no início e corrido nos últimos 20 minutos. Mesmo assim, ultrapassou um minuto dos 80 permitidos e deve perder ponto por isso.

A escola homenageou as mulheres negras, índias e brancas (que vieram como damas portuguesas) e trouxe algumas que se destacam na política: a ministra Nilcéia Freire, da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres, a deputada Laura Carneiro (PFL-RJ), a senadora Ideli Salvatti (PT-SC), entre outras.

Na confusão causada pelo carro quebrado, a ordem dos carros foi alterada, e o carro que homenageava as mulheres do Carnaval, como a carnavalesca Rosa Magalhães, da Imperatriz Leopoldinense, e Sônia Capeta, primeira madrinha da bateria da Beija-Flor de Nilópolis, que era o último, foi o penúltimo. Mesmo assim, a escola foi muito aplaudida.

Desfile de campeã

A Mangueira fez um desfile de campeã, apresentando um enredo sobre o Rio São Francisco. Entrou com uma hora de atraso por causa do problema da Porto da Pedra, mas levantou a platéia. A comissão de frente levava uma carranca que virava barco, do qual saía o coreógrafo Carlinhos de Jesus, sob muitos aplausos. Tudo sobre um pano azul que simulava a água do Velho Chico. De vez em quando, a coreografia reproduzia quadros de Cândido Portinari.

A escola mostrou índios, sereias, sertanejos, cangaceiros, agricultores do São Francisco e, por vezes, lembrava o desfile de 2002, sobre o Nordeste. Jamelão veio no alto do carro de som, descansado, como se não tivesse passado a noite de domingo (26) prestigiando as outras escolas. O patrocínio de R$ 500 mil vindos do Ceará, por interferência do ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, não afetou o carnavalesco Max Lopes.

"Só trato da parte artística", disse ele.

A arquitetura brasileira, com destaque para o Rio, foi o principal personagem do enredo Arquitetando folias, que a Unidos do Viradouro, escola de Niterói, trouxe para o Sambódromo na madrugada de ontem. Um dos carros alegóricos era maquete do Museu de Arte Contemporânea daquela cidade, obra de Oscar Niemeyer; outro era a Ilha Fiscal e havia também o Theatro Municipal do Rio. Em uma das alas, os componentes vestiam mantos que traziam fotos da antiga Avenida Central, tiradas por Augusto Malta. Uma representação do desabamento do edifício Palace II, no Carnaval de 1997, também estava lá.

A bateria da Viradouro empolgou com as paradinhas e a coreografia, inclusive para dar passagem à madrinha, a atriz Juliana Paes, que esbanjou simpatia, mas economizou samba no pé. Ao fim do desfile, o carnavalesco Milton Cunha estava exultante. "Foi um orgasmo", resumiu, dizendo que um dos momentos mais complicados para ele foi representar o carro da favela. "Fazer Carnaval com plumas e paetês é fácil. Difícil é mostrar a realidade."

Vaias e aplausos

A Mocidade Independente de Padre Miguel entrou na pista vaiada e saiu aplaudida pelo desfile emocionante que realizou. O problema é que a bateria passou em silêncio pela arquibancada popular, onde ficam os convidados da comunidade, que reclamou. Mas depois o desfile foi só empolgação, com as tradicionais paradinhas e coreografias da verde e branco de Bangu.

A escola trazia o enredo A vida que pedi a Deus, com os Cavaleiros da Apoteose (paz, fartura, saúde e equilíbrio), que trazem qualidade à vida. Mas a Mocidade também contou sua história, lembrando até os lendários desfiles de Fernando Pinto, nos anos 80s, e inovando com as baianas vestidas de negro.

O ator Marcos Palmeira era destaque num carro alegórico, vestido de operário, mas outros galãs salpicavam a escola. Marcelo Serrado, que saiu como diretor, e Rodrigo Santoro, que veio na bateria. "É difícil, mas ensaiei muito na quadra", disse Santoro, que atualmente filma nos Estados Unidos.

A Mocidade fez contraste entre as mazelas que mostrou – fome, peste, morte, guerra – e seus desejos para o homem. No fim Palmeira era só elogios. "Foi um desfile emocionante, especial, talvez por ser o cinqüentenário", disse o ator, que se considera "adotado" pela escola.

Mozart caiu no samba na Marquês de Sapucaí com a Unidos da Tijuca, que tinha a música como tema e o título Ouvindo tudo que vejo, vou vendo tudo que ouço, de Paulo Barros, já comparado com Joãosinho Trinta dos anos 70s. Sob a batuta do compositor austríaco a escola do morro do Borel e da comunidade portuguesa da zona norte veio leve, descontraída, emocionante.

Logo no abre-alas, nobres austríacos do tempo de Mozart saíam de um disco para formar painéis com retratos de músicos brasileiros (Tom Jobim, Elis Regina, Elizeth Cardoso e Cazuza, entre outros). Este era também o formato da saia da primeira porta-bandeira, Lucinha. O carro da ópera tinha Mozart, novamente, e um DJ, mas no palco alternavam-se dançarinos de rua, Michael Jackson e Elvis Presley, numa coreografia que envolvia 210 pessoas. A música de cinema estava no carro do ET ou em alas que lembravam Cantando na chuva, o filme de Stanley Donen. E houve também espaço para a música brega, no carro Fuscão preto. A escola passou rápido na Sapucaí e, no fim, teve que diminuir o ritmo de seu desfile para completar os 80 minutos regulamentares.

O Império Serrano conquistou o Sambódromo falando da fé brasileira. Foi a penúltima escola a passar, com um dos melhores sambas deste ano e simplicidade para falar de religiosidade. Todas as crenças foram homenageadas, mas o destaque foi a enorme imagem de São Jorge, Ogum, nas religiões africanas e santo protetor da escola de Madureira.

Além das paradinhas hoje obrigatórias, a bateria do mestre Átila tinha uma levada de afoxé e uma coreografia semelhante à da Viradouro, para deixar passar a madrinha Quitéria Chagas. A Império ousou ainda trazendo um São Francisco nu. Mas, apesar de um desfile alegre, a verde e branco também enfrentou problemas. Um grupo de dez passistas desfilou com fantasias incompletas, o que deve prejudicar a escola.

Sob forte chuva

A Portela fechou o Carnaval mais uma vez, empolgadíssima apesar da forte chuva que caiu durante os 80 minutos de sua passagem. O enredo Brasil, marca sua cara e mostra para o mundo mostrava como se formaram a nação e a cultura brasileiras, desde a pré-história, e suas alas eram o retrato dessa mistura. Havia desde a loiríssima socialite Kitty Monte Alto à beleza negra de Áurea, filha de Manacéa (Quantas lágrimas) e pastora da velha guarda.

Para evitar o vexame do ano passado, em que foi barrada no desfile, a velha guarda veio no carro abre-alas, mas escondida atrás de uma águia imóvel e de uma moça bela, seminua e desconhecida. O público quase não viu (e aplaudiu) Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho, Monarco, Walter Alfaiate e Tia Surica. O maestro americano Quincy Jones também passou despercebido. Ele veio na bateria até o setor 1 e depois subiu no carro Poder negro. "Qualquer lugar para mim é ótimo, porque adoro Carnaval", disse o produtor de Michael Jackson e Steve Wonder, que já desfilou antes, há 15 carnavais.

Paulinho da Viola chegou cedo na concentração e disse que gostava de sair com a alvorada (como no seu samba Foi um rio que passou na minha vida) e arriscou palpite. "Tudo depende da comunidade. Se todo mundo vier cantando, dá certo", ensinou. E a escola veio com tudo, talvez para compensar a chuva. Encontrou as arquibancadas pela metade, mas ninguém arredou o pé, mesmo ensopado. Pena que os carros alegóricos não correspondessem, em beleza, à empolgação. De toda forma, a Portela pode estar entre as seis escolas que voltam no sábado que vem, no Desfile das Campeãs, resultado a ser conhecido na tarde de hoje.