A divulgação de casos em que adolescentes teriam se ferido ou tirado a própria vida ao participarem dos desafios propostos pelo jogo mortal Baleia Azul – uma competição online surgida na rede sociais da Rússia, que incentiva o suicídio – acenderam o alerta para pais e familiares de jovens de todo o mundo. Em Curitiba, segundo a Secretaria Municipal da Saúde, oito casos envolvendo adolescentes com idades entre 13 e 17 anos são investigados. No Brasil, há pelo menos uma situação de automutilação e duas possíveis mortes ligadas aos desafios da Baleia Azul.

No entanto, independente da veracidade do jogo ou das mutilações terem relação com os 50 desafios propostos pelos “curadores” do jogo, para quem viveu de perto as profundas dores provocadas por um suicídio, esta oportunidade deve aproveitada, para que o tema seja debatido entre a sociedade. Pessoas como a estudante curitibana de ciências sociais Amanda Mendes, 22 anos, criadora do projeto de prevenção ao suicídio Minha Mente Não Cala, iniciado com uma página no Facebook, que oferece apoio, conforto e sigilo, para ajudar pessoas que enfrentam a depressão e outros desequilíbrios psicológicos e emocionais.

“Perdi meu irmão de 17 anos em 2015, para o suicídio, e assim surgiu a ideia de montar a página. Com ela consigo ouvir quem precisa e fazer um acompanhamento, encaminhando também para psicólogos parceiros. O jogo Baleia Azul e a série (13 Reasons Why, da plataforma de streamming Netflix) expostas pela mídia serviram para abrir o debate, que é muito importante. Cerca de 60% a 75% dos jovens hoje têm algum tipo de problema relacionado a depressão, que se agravada, pode levar ao suicídio‘, observa.

Segundo Amanda, entre os adultos é mais comum o suicídio por impulso, provocado pela perda de emprego ou de uma pessoa querida. Na adolescência, estão relacionados ao medo das coisas novas e de se abrir com alguém, de demonstrar sentimentos e outras dificuldades emocionais. Nestas situações, os pais, amigos e pessoas próximas podem ficar atentos aos sinais, que indicam que o adolescente corre risco ou precisa de atendimento especializado.

Amanda Mendes é a criadora do projeto. Foto: Hugo Harada.
Amanda Mendes é a criadora do projeto. Foto: Hugo Harada.

“Depois do que aconteceu com meu irmão, a gente começou a perceber que havia sinais. Pensamos que fosse uma fase, mas não era e nós poderíamos ter feito alguma coisa. Ele falava coisas como ‘queria dormir e não acordar mais’, entre outros comportamentos. Quem tem um adolescente em casa tem que prestar atenção, mas sem sufocar, tentando o diálogo, sendo amigo dos seus filhos e principalmente, deve buscar ajuda, pois existem alternativas”, ressalta.

Questão biológica

Para o médico psiquiatra Carlos Augusto Loyola, o jogo da Baleia Azul é preocupante especialmente pelo fato de estimular os adolescentes a se ferirem ou a atentarem contra suas vidas. “Induzir o adolescente ao suicídio ou autoagressão é um crime, quem está do outro lado da linha, os ‘curadores‘ são criminosos que precisam ser investigados. Para evitar que isto aconteça, os pais precisam estar atentos, se os filhos têm sinais de autoagressão e se ficam acordados de madrugada, se movimentando pela casa nos horários em que os desafios devem ser cumpridos (às 4h20)”.

10 mil
suicídios são registrados anualmente no Brasil, segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP)

E de acordo com médico, os adolescentes acabam atraídos pelo desafio, sendo mais suscetíveis por conta de uma questão fisiológica. “O adolescente é mais vulnerável, é uma questão biológica, o cérebro dele ainda não terminou de se formar. O lobo pré-frontal, responsável pela crítica racional, só termina de se desenvolver por volta dos 20 ou 21 anos. Isso faz com que sejam mais suscetíveis aos desafios. No entanto, há informações de que doenças neuropsiquiátricas já estivessem presentes entre as vítimas do jogo. E grande parte das doenças psiquiátricas tem início na adolescência”, aponta.

Sinais de alerta contra o suicídio

– Mudanças importantes de comportamento
– Tristeza intensa, durante vários dias
– Apatia total, a pessoa fica distante e não demonstra nenhum sentimento
– Aumento da agressividade e das brigas na escola
– Queda nas notas e na frequência escolar
– Perda de vínculo com a turma de amigos
– Falar frases como “gostaria de dormir para sempre, nunca mais acordar” ou “você ficaria melhor sem mim”
– Pessoa fica fechada em si pelo medo
– Falta de interesse e planos para o futuro
– Abuso de substâncias, como álcool e drogas
– Tentativas prévias de suicídio
– Doação inexplicada de objetos valiosos

O que fazer?

Casos os sintomas sejam identificados, é recomendado procurar ajuda especializada, com psicólogo, psiquiatra, clínico geral ou até mesmo pediatra.