Brasília – O acidente com o vôo 1907 da Gol, no dia 29 de setembro do ano passado, quando morreram 154 pessoas no norte de Mato Grosso, foi o estopim da crise aérea pela qual passa o país e um marco divisor no setor de controle aéreo do país. A opinião é do presidente do Sindicato Nacional dos Trabalhadores na Proteção ao Vôo, Jorge Botelho.

Desse dia em diante, afirma ele, ?nenhum controlador mais é maluco de pegar um número excessivo de aeronaves para operar?, como ocorria até então. Com essa decisão, ficou evidente a falta de pessoal e de estrutura no setor.

Antes da queda no avião, ressalta Botelho, os controladores de vôo trabalhavam sobrecarregados ? dependendo da região, o profissional podia operar até 20 aeronaves, quando o limite seria de no máximo 14. A partir do acidente, com a recusa dos controladores em trabalhar sem condições, começaram a surgir os problemas no tráfego aéreo brasileiro – atrasos de decolagens, confusões nos aeroportos e relatos de aviões quase se chocando em vôo. O momento ficou conhecido como ?apagão aéreo?, resultando em duas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) no Congresso Nacional para apurar responsabilidades.

Segundo Botelho, após a tragédia com o vôo 1907 houve uma mudança de consciência no setor. Ninguém mais quis se expor nem colocar em risco a vida dos passageiros. ?Os controladores não querem ser mais bucha de canhão para resolver o nó aéreo. Este nó foi passado para aqueles que o fizeram, o comando da Aeronáutica, a Infraero (Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária) e a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil)?, frisa.

O que aconteceu, de acordo com ele, é que os controladores de vôo decidiram não ?carregar mais nas costas? o aumento da demanda no tráfego aéreo que ocorreu nos últimos anos. ?Os profissionais trabalhavam acima do limite. Veio, então, o acidente e a mudança de consciência. Há agora uma atenção maior na questão segurança, e ninguém quer se arriscar e ser indiciado criminalmente?, pontua.

Esse novo comportamento dos controladores, segundo Jorge Botelho, não foi compreendido pela sociedade e criticado pela mídia, pois resultou na crise aérea. ?Todos nos criticaram chamando a nossa postura de ‘operação padrão’. Mas, na verdade, antes a gente operava fora do padrão, acima do limite, colocando em risco os passageiros e a responsabilidade por qualquer acidente era nossa. Agora, os controladores não querem mais assumir essa responsabilidade pelo nó aéreo?, finaliza.

O Sindicato Nacional dos Trabalhadores na Proteção ao Vôo representa os profissionais civis que atuam no segmento aéreo ? controladores de vôo e técnicos de eletrônica e de informação.