O Brasil não mais se espanta e a maioria do povo gosta da maneira informal, despreocupada, populista e não raro eleitoreira como o presidente Lula fala em seus discursos, em especial naqueles que contam com um numeroso auditório. Basta ter em mãos um simples protocolo de intenções para uma obra ou ação que ainda está no terreno das conjecturas e ele baixa o verbo. Não há cuidados gramaticais, o que aliás é dispensável. Mas dispensa também o protocolo, a lógica e parece que se esquece de que é presidente da República de um dos maiores, infelizmente ainda não dos melhores países do mundo.

Um dos últimos discursos de Lula que entraram para o folclore das falas presidenciais aconteceu em Recife. Aliás, foram dois, o primeiro quando ele elegeu o atrabiliário Hugo Chávez, presidente da Venezuela, como sendo o ?pacificador?. Referia-se aos episódios envolvendo a Colômbia e as Farc, que quase acabou numa luta armada na América do Sul. E Chávez, em seu afã de fazer proselitismo com o problema e apoiar os terroristas colombianos, chegou a colocar tropas nas fronteiras, pronto para um embate que só não aconteceu porque as partes tiveram juízo em reunião da Organização dos Estados Americanos. Mas o discurso mais notável pelo uso de língua solta e frases jocosas deu-se em Recife, durante fórum empresarial entre Brasil e México.

Otimista como sempre, o presidente brasileiro disse que, no que se refere à economia nacional, duas coisas apenas o preocupam. Uma é a manutenção da auto-estima do nosso empresariado, o que não foi lá muito compreensível. É provável que estivesse falando em otimismo e não auto-estima, esperando que os empresários brasileiros, diante de uma demanda por bens duráveis e de consumo crescente, respondessem com mais e suficientes investimentos. Tudo para não acentuar-se um desequilíbrio entre a oferta e a procura que já se anuncia. E ameaça fazer voltar a inflação em níveis de difícil controle.

A segunda preocupação e com a crise dos Estados Unidos, aliás uma preocupação do mundo inteiro e que já vem ameaçando vários países de um ?tsuname? financeiro. Aí não deu para entender, pois o presidente Lula saiu-se com esta frase paradoxal: ?Essa crise pode não ser tão grande, como a gente imagina, mas pode ser maior do que a gente imagina?. Uma sentença tão inimaginável quanto o tamanho da crise que está na imaginação do nosso governante. Ou que sequer existe, pois ele, por diversas vezes, insistiu que se trata de problema dos Estados Unidos, que o Brasil está vacinado contra essa crise e que não temos nada com o assunto.

Aliás, essa posição de alienação foi repetida nesse mesmo discurso (ou piada). Lula contou ter ligado duas vezes para o presidente norte-americano George W. Bush para tratar da crise, pois soubera que o colega estava chateado com algumas declarações do presidente brasileiro.

Textualmente: ?Eu liguei para ele para falar: Bush, o problema é o seguinte, meu filho, nós ficamos 26 anos sem crescer. Agora que a gente está crescendo vocês vem atrapalhar. Resolve, resolve a tua crise?.

Depois dessa pérola, afirmou que o Brasil tem ?know-how? para salvar bancos, citando o Proer, programa que socorria instituições financeiras em dificuldades na década de 90. ?Se precisarem, podemos mandar esta tecnologia para eles (EUA)?, afirmou o presidente brasileiro.

Recorde-se que o Proer foi encarado pelas oposições, hoje governo, como um escândalo. Foi entendido como uso abusivo de recursos públicos e do sistema financeiro para socorrer instituições mal geridas e algumas geridas com desonestidade. Recebeu duro combate da mesma gente que hoje está no poder no Brasil e o invoca como solução, ?know-how? brasileiro que até poderia ser exportado para os Estados Unidos da América e ensinar-lhes a sair da profunda crise em que está engolfado e levando junto o mundo financeiro.

No mesmo discurso Lula falou do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para o aquecimento do mercado interno, aliás já exageradamente aquecido. E invocou o santo nome em vão. Referindo-se ao programa Fome Zero, disse que ?a multiplicação dos pães que Cristo flava e justamente essa?, ou seja, o seu programa assistencialista.