Aquiles tinha dois calcanhares. Luiz Inácio Lula da Silva, como presidente eleito, tem vários calcanhares-de-aquiles sensíveis e que podem abalar o gigante de mais de 56 milhões de votos, anabolizante que ninguém experimentou até agora. Mas, em compensação, o metalúrgico eleito presidente do Brasil desde já expõe muitos calcanhares-de-aquiles, mais de dois pontos fracos. O primeiro é a questão da fixação do novo salário mínimo.

Embora só assuma o governo no dia 1.º de janeiro de 2003, desde já tem de enfrentar o problema, pois os parlamentares seus correligionários e aliados, que não constituem maioria no Congresso, terão de alterar a proposta de orçamento para o ano que vem, aumentando a rubrica destinada ao novo salário mínimo. A enviada pelo governo FHC é de apenas 5,5% de aumento, o que elevaria o mínimo, hoje de míseros R$ 200,00, para R$ 211,00 mensais. Recentemente decidiu-se que os governadores dos estados poderiam decidir sobre mínimos regionais maiores que o nacional. Garotinho elevou o do Rio de Janeiro, Estado que governava, para R$ 280,00. Apoiou Lula no segundo turno e o esperável é que sua bancada, que é uma das adesistas, por coerência insista num mínimo de mais de R$ 280,00.

No PT de Lula sempre se lutou por um salário mínimo bem maior do que o praticado no Brasil. E com razão, pois segundo os últimos cálculos do Dieese, obedecida a definição constitucional do salário mínimo, que deve cobrir as despesas essenciais de uma família constituída de marido, mulher e dois filhos, deveria hoje estar em R$ 1.168,92.

A luta petista por um salário mínimo mais condizente com as necessidades dos trabalhadores sempre foi liderada pelo deputado gaúcho e hoje senador eleito Paulo Paim. Os números da promessa de campanha são de 100 dólares. E o dólar agora está caindo, mas já esteve em R$ 4,00, o que transformaria a promessa petista em mínimo de R$ 400,00.

Os argumentos do governo de que é impossível subir mais o mínimo, a menos que apontassem recursos, pois os benefícios da Previdência estão a ele amarrados e seu déficit já soma R$ 70 bilhões, nunca convenceram a oposição. Esta sempre insistiu que existiam fórmulas para resolver o problema. Pois agora vai ser governo e terá de encontrar as fórmulas. Ou teria, pois a cúpula do PT já trata de refrear as expectativas e fala num mínimo, se possível, maior que os R$ 211,00 propostos pelo governo, mas não muito. Quem sabe uns R$ 220,00 ou algo parecido. Uma pitada a mais de quirera.

A reforma da Previdência, que liberaria um pouco mais o salário mínimo, é um outro calcanhar-de-aquiles e sua solução exigirá muito estudo, trabalho, negociações e tempo. Impossível, portanto, reformar a Previdência antes, para depois aumentar o mínimo.

Aproveita-se disso o PSDB, que, deixando de ser vidraça como governo, agora vai ser estilingue. Propugna por um mínimo de R$ 240,00, número já referido por alguns petistas e que agora assusta o governo Lula. Cadê o dinheiro? Ao negar o mínimo por que sempre lutou, Lula e o PT sairão mancando. Ao não reformarem a Previdência ou extinguirem de pronto seu déficit, também. E novos calcanhares serão atingidos, pois os homens do novo governo já rejeitam a redução da alíquota máxima do Imposto de Renda de 27,5% para 25%, como propugnavam e, aliás, tinham a aprovação até do atual governo. Lula vai estar numa torturante cama de faquir e, com extraordinária habilidade, terá de dizer não para o que antes exigia um sim.