No PT conflagrado pelo mensalão, Delúbio Soares foi hoje (22) merecedor de depoimentos que lhe conferem o perfil do bom companheiro – "um gladiador", como disse João Felício, secretário sindical do partido. O discurso parecia ensaiado à porta da sede do PT, onde o diretório nacional se reuniu desde as 10 horas para votar o parecer da Comissão de Ética que recomenda a expulsão do ex-tesoureiro da agremiação.

O tom ameno foi adotado por integrantes do Campo Majoritário depois que Delúbio apresentou sua última peça de defesa, documento que guarda um tom ameaçador. Muitos que defenderam pena capital para o ex-guardião do dinheiro do partido agora pregam uma pena branda para ele.

Aloizio Mercadante (PT-SP) foi exceção. "Sou favorável à expulsão", ele enfatizou, à porta da sede do partido, no centro de São Paulo. "O PT pede desculpas à sociedade, é um preço que o partido tem que pagar."

Para evitar sua exclusão, Delúbio chegou a arriscar uma manobra, na sexta-feira. Esboçou uma carta com pedido de desfiliação, alegando que era um gesto de sua parte "para evitar desgaste no partido". Desistiu da estratégia quando foi informado que o presidente interino do partido, Tarso Genro, colocaria de qualquer forma em votação o relatório que o acusa de "gestão temerária" à frente das finanças do PT.

O relatório da Ética não apontou para nenhum outro dirigente petista. Um integrante da comissão, Luix Costa, apresentou voto em separado propondo abertura de processo disciplinar contra José Genoino, ex-presidente do partido, o ex-ministro José Dirceu (Casa Civil) e outros seis parlamentares citados no mensalão.

A operação para livrar Delúbio do golpe fatal contou até com o reforço de Paulo Rocha (PT-PA), que a CPI dos Correios flagrou como beneficiário do esquema que o ex-tesoureiro teria articulado. Único parlamentar da legenda que renunciou para não ser cassado – o rastreamento na boca do caixa do Banco Rural indicou saques de R$ 420 mil em favor dele – , Rocha declarou que não se sente prejudicado por Delúbio. "Essa discussão tem uma dose de hipocrisia muito grande, uma vez que só o PT está assumindo que realmente fez captação de recursos fora de época, as verbas não contabilizadas. Foi uma irregularidade coletiva. Também estou assumindo o que toca da minha parte."

Danilo de Camargo, tesoureiro do PT estadual e ex-presidente da Comissão de Ética, sugeriu punição suave para Delúbio. "Quem criou o monstro foi o PSDB, o Delúbio só alimentou", disse, fazendo alusão ao depoimento de Claudio Mourão, ex-caixa de campanha do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), à CPI dos Correios.

"Não acho que a expulsão do Delúbio seja a medida mais correta", declarou João Felício, que sugere suspensão de 1 ou 2 anos. "Caixa 2 é prática normal em todos os partidos políticos desse País. Da mesma maneira que sou contra a expulsão do Delúbio, sou contra a cassação de deputados até porque se formos fazer isso teremos que cassar centenas de deputados."

Felício pediu uma "grande reforma política" e o fim do financiamento privado das campanhas. "Quero saber se todos os partidos que hoje fazem esse discurso estão dispostos a fazer essa reforma. Com certeza não farão. Não devemos crucificar pessoas. Outrora, o Delúbio era um gladiador bastante eficiente. Agora querem jogar o Delúbio na arena para que os leões possam devora-lo. Não concordo com essa tese."

Paulo Frateschi, presidente do diretório estadual, endossou "a proposta do Felício". Ele acha que "basta uma suspensão". Segundo Frateschi, "julgar Delúbio como corrupto, jamais; gestão temerária não é corrupção". O deputado Professor Luizinho (PT-SP) não disse se era a favor ou contra a expulsão de Delúbio, mas cobriu-o de afagos. "O Delúbio tem assumido postura de defesa interna do PT, promovendo encaminhamentos de forma determinada. Em alguns casos é merecedor de elogios. Assumiu todo o ônus sozinho, se pautou na busca de resolver os problemas do partido. Preciso saber o que diz o relatório (da Ética)."

Devanir Ribeiro, deputado (PT-SP), disse que "quem errou pague". Mas ele não vota. "É melhor inclusive para ele (Delúbio) e melhor para nós que saia do partido". Sobre o caixa 2, que Delúbio admitiu em sua defesa, Devanir anotou: "Não são só os partidos políticos, várias empresas usam o caixa 2, o Brasil é costumeiro nisso. Há uma sonegação muito grande."

Quando disse que o caixa 2 "é uma prática comum, mas ninguém autorizou Delúbio a fazer", Devanir foi interrompido por um homem que passava pé pela rua Silveira Martins. "Me engana que eu gosto, deputado, engana o Brasil."