O cancelamento do Censo Agropecuário que deveria ser realizado este ano pode dificultar projetos e financiamentos do governo para a reforma agrária.

Com os dados, o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) pretendia conhecer as modificações ocorridas na vida das famílias que participam da reforma agrária e formular políticas para o tema, com base nessas informações. Calcula-se que entre 1995 e 2004, foram assentadas cerca de 600 mil famílias no país.

O coordenador do Núcleo de Estudos Agrário e Desenvolvimento Rural (Nead), Caio Galvão de França, diz que em 1995 o Censo Agropecuário ainda não incluía estudos sobre os assentamentos da reforma agrária. No Censo deste ano, esse levantamento estava previsto.

"Hoje, organizamos e implementamos as políticas tendo como referência um retrato bastante defasado. Esses dez anos não são um período qualquer", alerta o coordenador do Nead, também assessor do ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto.

"Nessa década, a agricultura passou por profundas modicações. O crédito para a agricultura familiar foi ampliado e tivemos a instalação de mais de 5 mil assentamentos. E essa participação produtiva e econômica, para ser devidamente avaliada, precisa dos dados do censo."

Pelos cálculos do IBGE, para realizar o Censo Agropecuário são necessários R$ 420 milhões. Parte do recurso está previsto na Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2006. Ainda assim, o presidente o Instituto, Eduardo Pereira Nunes, diz que a conversão do projeto em realidade depende de "disponibilidade orçamentária adicional".

"Ainda não há hoje recursos suficientes para viabilizar o Censo Agropecuário, mas tendo em vista o interesse pela sua realização, o governo incluiu o censo na LDO e nós trabalharemos ao longo do ano de 2006 para obtenção desses recursos", prevê Nunes. Segundo ele, em troca dos recursos, o governo solicitou ao IBGE que repense o projeto como um todo, buscando uma alternativa do ponto de vista orçamentário mais apropriada à situação do país.

A preparação desse novo modelo demandará em torno de dez meses de estudos. A idéia é realizar o novo Censo Agropecuário em fevereiro de 2007, com um desenho que será definido agora, englobando visitas a campo pela equipe de recenseadores do Instituto a cinco milhões de propriedades agrícolas para entrevistas referentes a tudo que elas produziram no ano de 2006.

A conclusão do novo modelo deverá passar pela aprovação do conselho consultivo do IBGE, formado por técnicos da instituição e especialistas de fora convidados.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) reconheceu na semana passada a impossiblidade de aplicar o Censo Agropecuário este ano. Realizado a cada cinco anos, o levantamento não é feito desde 1995 por falta de recursos. O último Censo trouxe dados sobre utilização de terras, situação dos produtores, uso de assistência técnica, máquinas e veículos existentes, valores de investimentos, além de números sobre rebanhos e produção.