Até mesmo durante a ditadura, os distinguidos com o convite para exercer o Ministério da Justiça eram encarregados da condução da ?articulação? política do governo. Aliás, nos anos de chumbo da história recente do País, é dispensável supor que o governo estivesse preocupado em manter bom relacionamento com os partidos – Arena e MDB – tendo em vista que as decisões eram ditadas de forma autoritária.

Basta lembrar o AI-5 e, mais tarde, o ?pacote de abril? que culminou com o fechamento do Congresso, baixado pelo então presidente Ernesto Geisel, a quem a imprensa mesmo sob censura passou a chamar de ?constitucionalista do Riacho Fundo?.

Nostálgico dos tempos em que o ministro da Justiça exercia em plenitude também a elevada função de articulador político, o ministro Tarso Gen-ro deve ter se inspirado no interregno vivido pelo País a partir da derrocada do Estado Novo em 1945, quando tivemos quatro presidentes eleitos democraticamente (Dutra, Vargas, Juscelino e Jânio), até a nova intervenção golpista de 1964.

A digressão é necessária para compreender o esforço do ministro Tarso Genro, na hipotética retomada da importância da pasta enquanto matriz da concepção política propriamente dita do governo, mas, sobretudo, na tentativa de reivindicar para o presidente Lula uma prerrogativa que visivelmente lhe está sendo arrebatada.

Não foi outra a intenção do ministro da Justiça ao assegurar que caberá ao presidente Lula, sem dúvida o maior líder do PT, em havendo mais de um, definir o candidato ideal do partido à sucessão. Com isso, Tarso também quer neutralizar o pensamento que põe em dúvida a capacidade do partido de disputar com candidato próprio, de fato, uma opção já sacramentada pelos círculos dirigentes do petismo.

Contudo, a probabilidade do candidato surgir do consenso da base partidária e não necessariamente do PT foi ventilada pelo próprio Lula, que chegou a declinar o nome de sua preferência – Aécio Neves – caso o governador mineiro migrasse para o PMDB. Um balão de ensaio que logo se esvaziou.

O complicador é que o PT tem vários pré-candidatos (Dilma Rousseff, Patrus Ananias, Marta Favre ou Jacques Wagner, entre outros), nenhum com cacife suficiente para enfrentar desafio desse naipe, mesmo com o apoio pessoal de Lula. Afinal, na base, o único político com alguma condição é o deputado Ciro Gomes (PSB-CE), que à semelhança de passarinho na muda se mantém em inquebrantável silêncio. Para não botar tudo a perder como é de seu costume.