Brasília, 15 (AE) – Um banco de dados enviado por promotores dos Estados Unidos ao Ministério Público brasileiro e à CPI do Banestado, com o registro eletrônico de 534 mil operações financeiras realizadas no MTB Bank, de Nova York, teve seu sigilo quebrado e está no epicentro da crise política que paralisou o Senado e obstruiu a votação de projetos como o das Parcerias Público-Privadas (PPPs).

Do CD-ROM de quase 700 megabites, obtido pela reportagem constam tabelas, valores, datas dos depósitos, números de contas e todo o passeio do dinheiro de brasileiros que enviaram dólares para o exterior ou resgataram de lá. São depósitos e saques feitos em 44 contas bancárias que, juntas, movimentaram US$ 17 bilhões entre 1997 e 2003. Esse dinheiro entrou e saiu clandestinamente do Brasil via doleiros brasileiros, paraguaios, uruguaios e de outros paraísos ficais, donos de contas abertas no MTB que funcionavam como uma espécie de compensação internacional paralela.

Nesse imenso banco de dados aparecem nomes e sobrenomes conhecidos, a maioria de políticos e empresários, como Paulo Maluf, Cecílio Rego Almeida (dono da empreiteira C.R. Almeida), Luiz Ermírio de Moraes, do grupo Votorantim, e Romeu Chap Chap, presidente do Sindicato da Construção Civil de São Paulo e até do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga. Foi o sobrenome Jereissati, porém, que gerou a crise política.

No CD, sob análise da Polícia Federal e da Receita Federal, estão registradas remessas feitas por diversos familiares do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), somando quase meio milhão de dólares no curso de seis anos – uma média de US$ 82 mil por ano, ou US$ 6 mil por mês. Foi o suficiente para que circulasse no Congresso a informação de que “o PT tinha o senador na mão”.

Tasso acusa o relator da CPI do Banestado, deputado José Mentor (PT-SP), de tê-lo investigado com fins políticos. E também o responsabiliza pelo vazamento com o objetivo de intimidá-lo e reduzir sua oposição ao governo. O nome do senador no entanto, não consta do CD, nem o de sua mulher ou filhos. De acordo com os dados do banco americano, foram registradas 15 movimentações financeiras feitas por pessoas com sobrenome Jereissati, todas com endereço de Fortaleza, registradas entre fevereiro de 1997 e maio de 2002 e sob a responsabilidade de Paulo, João, Roberto, Fábio, Pedro e Jorge Jereissati Ary, que o senador reconhece como parentes indiretos.

Furlan – O conteúdo do banco de dados do MTB respinga no governo. Lá constam os nomes de dois irmãos do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Luiz Fernando Furlan – Diva Helena e Osório Henrique Furlan Júnior. Eles também utilizaram o esquema de remessas ou internação de dólares via conta de doleiro.

Entre janeiro de 1997 e agosto do ano seguinte, Osório Henrique Furlan Júnior fez nove operações financeiras entre o Brasil e os Estados Unidos através de contas operadas por doleiros. Foram US$ 465 mil que Osório Júnior enviou aos EUA sem avisar ao Banco Central.

Diva Helena Furlan utilizou o esquema em agosto e novembro de 1999 para trazer US$ 20 mil ao Brasil. Júnior, Diva e o ministro são filhos de Osório Furlan, um dos mais antigos conselheiros da Sadia S.A., empresa da qual o ministro é um dos herdeiros e na qual trabalhava como executivo até ir para o governo.

O ministro Furlan mandou dizer por intermédio da sua assessoria que não iria se pronunciar sobre o caso. A Sadia informou que Diva e Osório nunca foram executivos da empresa e que não tem acesso a informações privadas de seus acionistas.

Operações da falida Transbrasil e da Varig e Vasp, ambas em crise financeira há anos, também constam do banco de dados. Em uma análise preliminar, a força-tarefa já identificou envios de mais de US$ 1 milhão da Parmalat e US$ 16,7 milhões movimentados pelo Banco Opportunity.

Também estão registradas oito operações de US$ 1,6 milhão feitas pelas Casas Bahia.

O presidente do Sindicato da Habitação de São Paulo, Romeu Chap Chap, negou que tenha feito operações financeiras com doleiros, como aparece no banco de dados do MTB Bank, e culpou o Banco Opportunity por ter feito esse tipo de operação irregular. Procurado pela reportagem, o Banco Opportunity prometeu uma resposta sobre o assunto mas o assessor de imprensa da instituição, Coriolano Gato, não respondeu às perguntas. A Vasp mandou dizer, por intermédio de sua assessoria, que desconhece as movimentações reveladas no CD do MTB Bank. A Varig também desconhece as operações via doleiros do MTB.

A assessoria de imprensa de outra empresa citada, a Parmalat, disse que o grupo empresarial italiano ainda está sob intervenção e não tem diretoria no Brasil.

O diretor de Construção da CR Almeida, Ademar Queiroz, informou à direção da empresa sobre o assunto da reportagem e se dispôs a dar um retorno. Quase uma semana depois, a empreiteira nada respondeu.

Tasso Jereissati acusou o relator da CPI do Banestado, José Mentor (PT-SP), de ter feito uma investigação específica com o sobrenome da sua família e estar tentando utilizar estas informações como arma política a favor do PT.

Até o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, quando morava nos Estados Unidos, utilizou o esquema dos doleiros do MTB Bank. Fraga enviou pouco mais de US$ 68 mil a parentes e amigos no Brasil em sete remessas.

“Segui a orientação dos meus familiares. Não sabia que a conta era de doleiro”, justificou Armínio, afirmando que fez as remessas para ajudar em problemas financeiros e de saúde enfrentados por familiares.

O ex-prefeito Paulo Maluf (1993-1996) reagiu à informação de que seria beneficiário ou titular de conta no MTB de Nova York. Em nota distribuída por seu assessor Adilson Laranjeira, Maluf foi categórico: “As informações contidas neste suposto CD-ROM são falsas.”