José Serra foi pego pela lei de Murphy, aquela que diz: “se uma coisa pode dar errado, dará. E dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível”. Não bastassem os 25 milhões de votos que o distanciam de Lula, Serra acaba de ver o seu guarda-chuva, Fernando Henrique, deixá-lo debaixo do maior toró do início desse segundo turno: o aumento dos juros de 18% para 21%, que, de um lado, onerará os setores produtivos e, de outro, dará aos bancos cerca de R$ 480 milhões mensais, de acordo com cálculos de especialistas. Na esteira da famosa lei da maldade, que prevê acontecimentos infelizes sempre ocorrendo em série, o protetor Fernando Henrique, em discurso irritado na CNI, afirmou que “nada vai acontecer, ganhe quem ganhar”. Ora, o alvo da frase é seu candidato, Serra, cuja campanha está montada na propagação do medo, diante da previsível vitória de Lula.

Para muitos, a ênfase do presidente equivale à toalha jogada no chão. A conclusão tem sentido. Afinal de contas, para ultrapassar Lula, Serra teria de colher, por dia, mais de 2 milhões de votos, o que, convenhamos, é tarefa que está a exigir não apenas desempenho extraordinário do candidato mas uma disparada de gafes e erros do adversário. Portanto, os sinais estão todos apontando para uma vitória do petista, restando à análise política a tarefa de interpretar os cenários do governo comandado pelo ex-torneiro mecânico do ABC paulista.

Pelo menos três cenários podem ser vislumbrados. O primeiro, de cor “tucano-pálida”, seria uma extensão da administração de FHC. As grandes diretrizes da atual gestão econômica seriam preservadas, a partir dos compromissos e metas assumidas com o FMI. Significa dizer que, pelo menos em um primeiro ciclo, a política cambial e o programa de metas inflacionárias seriam continuados, sob o comando de gestores econômicos endossados pelo mercado. A cara mais próxima ao PT e à Lula seria dada com avanços pontuais, principalmente no campo de reformas que já se consideram maduras, como as reformas tributária e previdenciária e uma ação forte direcionada à alavancagem de setores produtivos, com ênfase às exportações.

O segundo cenário tem a cor “vermelho forte”, cujos eixos apontam para a moratória da dívida externa e revisão do programa de privatizações. Instado pelos credores externos, que não renovariam os créditos, o governo seria obrigado a fazer o “default”. O país se veria isolado e uma crise de credibilidade ameaçaria as bases da estabilidade econômica, com sérias conseqüências sobre o tecido institucional. Lula procuraria se amparar numa rede de pactos setoriais, com as grandes questões nacionais sendo conduzidas para a esfera das entidades intermediárias. Correríamos, ainda, o risco do assembleísmo, que transformaria o país num monumental e infindável congresso.

O terceiro cenário tem a cor “rósea”. Como o nome indica, é uma espécie de meio termo entre o primeiro e o segundo cenários. O governo preservaria os compromissos básicos com o FMI, procurando manter as políticas de ajuste. Para compensar e plasmar uma feição própria, tentaria reduzir os juros a patamares que não pudessem comprometer a estratégia da estabilidade. Um forte programa de exportação estaria na mira central da administração, com o apoio e os recursos do BNDES, cuja atenção se voltaria para linhas de financiamento de empreendimentos de pequeno e médio porte. Ou seja, uma visão nacionalista e protecionista mais forte tomaria lugar no governo petista. O gargalo seria a conquista da meta de crescimento em torno de 4 a 4,5% ano.

Esse cenário está mais próximo ao campo das probabilidades que os dois primeiros. A verdade é que Lula não quer ter a cara de Fernando Henrique. Mas sabe que não poderá ter também a fisionomia radical do velho PT de guerras e lutas. Por isso mesmo, é fácil prever que suas maiores dificuldades, depois de certo prazo de carência, serão colocadas pelos próprios correligionários, a partir dos 26 deputados eleitos da linha radical do PT e do MST, que certamente não deixarão por muito tempo as cabeças enfiadas no chão.

Em qualquer cenário, Lula vai precisar da maioria simples de 257 parlamentares e, para mudar a Constituição, de 2/3, ou seja, 308 deputados. Os pequenos partidos e o PL poderão até se coligar ao PT, formando um bloco de cerca de 200 deputados. Mesmo assim, o governo carecerá do apoio dos grandes partidos para tentar aprovar projetos. A maior proximidade, hoje, é com o PMDB, em função do apoio que Lula está recebendo de lideranças peemedebistas em alguns Estados. Na cozinha do futuro governo, a omelete será certamente preparada. Sob o desafio maior: como fazê-la sem quebrar os ovos?

Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político. E-mail: gautorq@gtmarketing.com.br