Nesta quarta-feira deverá ser lido no Congresso Nacional o requerimento pedindo a instalação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar a corrupção flagrada na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. O governo Lula se esforça – e até força – para que parlamentares signatários do requerimento dele retirem apoio. Não quer a CPMI num ano pré-eleitoral, temendo a exploração política do que for descoberto em termos de corrupção que envolve o PTB da base situacionista, na pessoa do seu presidente, deputado Roberto Jefferson. O PTB seria o coordenador da máquina de achaques.

Argumenta o governo, e assim entendem os líderes petistas, que basta a investigação dos fatos pela Polícia Federal, sendo despicienda uma CPMI, que teria, por detrás de si, objetivos meramente político-eleitorais. A força que fazem os situacionistas ainda resistentes à formação da comissão mista, inclusive Lula (que disse à imprensa que não está preocupado com o assunto), só faz com que aumentem as suspeitas. Se não houve e não há corrupção, a CPMI desmoralizará os detratores do governo, dentre os quais há oposicionistas e até situacionistas. Se houve e há corrupção, nada melhor em um ano eleitoral que um governante candidato à re-eleição seja o general da batalha pela moralização da vida pública, começando por uma enorme estatal como é a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Nem a eventual perda do apoio do PTB faria aumentar os prejuízos. Pelo contrário, evidenciaria a seriedade do governo, que não teme perder o apoio de corruptos e o concurso da corrupção.

Mas o quadro, que já não é claro, enegrece com as recentes declarações do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, já ligado, justa ou injustamente, com o escândalo Waldomiro Diniz. Ele, que desde o início foi o homem forte do governo Lula, em reunião do PT acusou a oposição de montar um clima de golpismo, pois no caso dos Correios insinua-se o envolvimento de Delúbio Soares, tesoureiro nacional do PT, e Sílvio Pereira, secretário-geral do partido de Lula.

A insinuação de que há um clima de golpismo perderia toda consistência não estivesse o País conturbado em várias frentes. Os meios de comunicação repetem à exaustão intermináveis escândalos, prisões de autoridades e achaques comprovados por câmeras ocultas e devidamente gravados. E ainda há a agressividade crescente do movimento dos sem terra; o aumento da criminalidade; a incapacidade do governo de fazer tramitarem no Congresso as matérias de seu interesse, chegando ao absurdo de a própria situação usar o expediente da obstrução parlamentar, arma própria, nas democracias, das minorias e nunca da maioria.

Há golpismo contra a ingovernabilidade ou para criar a ingovernabilidade. E há ingovernabilidade quando o governo se mostra tão fraco a ponto de ter verdadeiro pavor de uma CPI num caso de corrupção praticamente já provado.

Falando em golpismo, Dirceu pôs lenha na fogueira e, se incêndio nenhum eclodir, terá demonstrado a fragilidade política e administrativa do governo. Terá apontado o caminho da ingovernabilidade.