Danilo Nogueira não se contém de alegria. Aos 19 anos, ele acaba de assinar seu primeiro contrato de trabalho com o Palestra São Bernardo, clube que disputará a Segunda Divisão do Campeonato Paulista e onde foi recebido carinhosamente. Danilo é atacante e surdo-mudo. Nunca falou e tem 30% da audição de um dos ouvidos, o que lhe permite escutar apenas sons muito altos, como a sirene de uma ambulância ou uma música no último volume do rádio. "Se você conversar comigo perto dele, em tom normal, ele não escutará o que estamos falando", diz sua mãe, Maria da Glória.

A deficiência nunca impediu Danilo de jogar bola. Desde garoto, ele tem no futebol sua principal diversão. Começou nos campinhos de Pinheiros, no Espírito Santo, onde morava com a mãe e mais dois irmãos.

A surdez nunca foi motivo para que sua mãe o ?prendesse? em casa embora dona Maria da Glória, uma comerciante divorciada de 46 anos, não abra mão de levar e buscar o filho nos treinos do Palestra.

"Nunca o deixei tomar um ônibus sozinho. E não é por falta de confiança nele. O Danilo se vira muito bem. Mas tenho muito medo das coisas do mundo lá fora. Surdo, ele pode não reparar ou perceber o que está ocorrendo a seu redor", justifica a mãe.

Jogar num time profissional era tudo que Danilo queria da vida. Ele segue os passos dos irmãos, que sempre estiveram envolvidos com futebol. Alessandro, o mais velho, de 26 anos, é dono de um time de várzea em São Paulo. O do meio, Fábio, 23, joga em Portugal. É lateral-esquerdo e está há oito meses tentando a sorte na Europa. Sua mãe não sabe o nome do clube em que está.

Danilo tem o aval dos irmãos. "Conheço futebol e sei que ele tem condições de se dar bem. Quando brincamos, ele joga muito. Falta é meio gol para ele", garante Alessandro. O chute forte é uma de suas características. Quando joga com os amigos de Cotia, onde mora, é chamado de Roberto Carlos, uma alusão ao lateral da Seleção e do Real Madrid.

Apesar da incapacidade de se expressar com as palavras, Danilo mostrou no primeiro treino no Palestra que vivia momento especial da vida. Sua mãe falou por ele. "Este sempre foi o seu sonho e o nosso também."

Forte, o atacante já ganhou elogios no clube. Todos o receberam bem. Segundo o meia Igor, que afirmou jamais ter vivenciado algo parecido no futebol, a deficiência do amigo não trará qualquer prejuízo ao desempenho da equipe. "A gente até já começou a se entender em campo. Ele parece compreender tudo o que digo e mostra entrosamento", revelou.

Responsável pela contratação de Danilo, o advogado Otto Giorgi, atual comandante do futebol do Palestra, ficou feliz com o assédio ao jovem, que acabou, na sua opinião, servindo como exemplo de vida.

A linguagem corporal do futebol

"O Danilo joga normalmente. Já passou por equipes amadoras, possui carteira de habilitação, desenvoltura e o seu entendimento é semelhante ao dos outros profissionais. É o diferente que, na realidade, é igual", brincou o cartola.

Algumas perguntas são inevitáveis sobre a condição de Danilo, e as respostas só aparecerão depois de vê-lo em campo. Por exemplo: Como Danilo faz para ouvir o apito do árbitro? E para ouvir as orientações do treinador? Como ele faz para pedir a bola em campo? E se tiver dúvidas, como se expressará?

Giorgi acredita que tudo isso não será problema para o atacante surdo-mudo. Diz que o futebol tem uma linguagem corporal que não precisa de palavras. É nisso que o jovem atacante aposta.

Atletas como Danilo ajudam a derrubar barreiras contra o preconceito a deficientes. Nos Estados Unidos, um caso parecido recentemente chamou a atenção do presidente George W. Bush. Jason McElwain, autista, ganhou a oportunidade de jogar no basquete colegial. Em 4 minutos, marcou 20 pontos (com seis cestas de três) e garantiu a vitória de sua equipe.