Escrevendo sobre o que consideramos os erros de George W. Bush, nos referimos com ênfase à sua tendenciosa posição no conflito entre Israel e os palestinos. Tendenciosidade que tem feito com que a opinião pública mundial chegue até a afrouxar a solidariedade que, num primeiro instante, foi intensa e quase que unânime para com o povo norte-americano, em razão dos atentados de 11 de setembro.

Mais erros comete o novo presidente republicano dos Estados Unidos, vitimando países em desenvolvimento como o Brasil e até a Argentina, onde uma crise sem precedentes na história daquele país latino-americano está empurrando para a miséria mi- lhões de famílias. Presidindo um país que prega o livre comércio, Bush contraditoriamente começa a estabelecer forte protecionismo para produtos agrícolas e siderúrgicos da indústria norte-americana.

Isso acontece quando o presidente do nosso país, Fernando Henrique Cardoso, em nome dos países em desenvolvimento e pobres, vem pregando mudanças nas políticas dos desenvolvidos e de organismos financeiros internacionais como o FMI, para que em acordos não agravem os problemas da miséria e dos desequilíbrios regionais. Pelo contrário, que nas políticas dos países desenvolvidos, do FMI e de outros organismos multinacionais se incluam, como condicionantes para empréstimos, acordos comerciais e alianças, a compreensão de que tudo deve ser feito de forma a colaborar para reduzir a pobreza. Essas mesmas posições críticas tem tomado o Brasil em relação à Comunidade Econômica Européia, que, na nova onda de protecionismo, é ao mesmo tempo algoz e vítima.

Países em desenvolvimento, dotados de amplos territórios de terras férteis, como o Brasil e a Argentina, têm e sempre terão em posição de destaque, em suas pautas de exportações, os produtos primários. Nova legislação norte-americana de proteção à sua agricultura na verdade a privilegia, enquanto coloca em dificuldades milhares de agricultores daqui e do nosso principal sócio do Mercosul.

Há, em discursos dos candidatos à Presidência da República, a idéia de dar o troco com a mesma moeda, estabelecendo também protecionismo em relação a produtos similares que produzamos para exportar. Uma posição eticamente sustentável, mas que poderá não sê-lo em termos econômicos, dependendo da independência que possamos exercitar no comércio exterior com países tão poderosos como os Estados Unidos ou os da Comunidade Européia. A Argentina, mesmo na frágil situação em que se encontra, pretende associar-se ao Brasil na Organização Mundial do Comércio denunciando o protecionismo norte-americano. Alfredo Atanasof, chefe de gabinete de ministros da Argentina, estima que os subsídios norte-americanos representem uma perda da ordem de US$ l,4 bilhão para o país platino, exatamente numa hora em que pede insistentemente socorro internacional, notadamente aos próprios Estados Unidos, ao FMI e ao Bird, para tentar sair do estado de falência em que se encontra.

Assim, não se trata de curvar-nos a direitos soberanos dos norte-americanos protegendo sua produção, mas de denunciarmos, num mundo globalizado, políticas protecionistas que atentam contra as justas ambições de outros países ao bem-estar de seus povos. Bush, o mesmo presidente que reivindica solidariedade quando seu povo é atacado injustamente, faz vítimas aqui, na Argentina e no resto do mundo em nome dos interesses econômicos de seu país.