O presidente Lula, na última reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico, fez duras críticas às aposentadorias privilegiadas e às esquerdas, que chamou de conservadoras. O chefe da nação deixou muito claro que sabe quão dura será a luta para obter a aprovação das reformas, mas considera que valerá a pena, pois elas propiciarão ao Brasil um avanço de dez anos. Há unanimidade sobre a necessidade das reformas. A previdenciária, porque sangra o erário, pois seus dispêndios, muito maiores que suas receitas, obrigam o poder público a subsidiar o sistema. A tributária, porque a carga é demasiada, maldistribuída e entrava, por onerar em demasiado, setores da economia que precisam de estímulos para se desenvolver.

Há consenso sobre a necessidade das reformas, mas não sobre sua forma. A da Previdência, por exemplo, tem contestada a pretensão de unicidade, uma mesma para os trabalhadores da iniciativa privada e para os do setor público, sejam do Executivo, do Legislativo, Judiciário e inclusive militares.

Essa contestação resulta não só de interesses que poderá contrariar, mas também de concepções diversas sobre a natureza dos serviços prestados por cada segmento de trabalhadores. Não há como comparar o que faz um militar com o que faz um trabalhador da iniciativa privada ou um funcionário público burocrata. As atividades da magistratura e do Ministério Público diferem em tudo das atividades de outros funcionários, pela natureza de suas funções.

Há a pretensão de que o teto das aposentadorias seja único, o que torna iguais os desiguais e, sem elevar, para valer, os que têm proventos menores, como a maioria dos trabalhadores da iniciativa privada, reduz com violência os ganhos de algumas categorias especiais do serviço público. Assim, há unanimidade pelas reformas, mas ninguém vai conseguir empurrá-las com a barriga. O vice-presidente da República, por exemplo, empresário José Alencar, já faz críticas à proposta do seu próprio governo à reforma tributária.

Na reunião do conselho, o presidente da República fez um desabafo. Criticou as aposentadorias privilegiadas por leis plantadas para beneficiar este ou aquele grupo. Referiu-se a aposentados que percebem proventos de mais de R$ 17 mil e até alguns que ganham até R$ 53 mil. Sem dúvida, os abusos devem ser coibidos, respeitados os direitos adquiridos, se existirem e considerado o fato de que algumas aposentadorias mais altas só são elevadas porque, para a maioria dos trabalhadores, se paga muito pouco. A preocupação de pagar melhor para os que ganham pouco deve ser prioridade e não o achatamento dos proventos dos que ganham bem.

Ao criticar as esquerdas, que taxou de conservadoras no tocante às reformas, Lula contra-atacou aqueles que foram seus companheiros de partido ou de outras agremiações, sempre o apoiaram e agora são contra. Não adquiriram a nova visão progressista que surgiu no mundo depois da queda do Muro de Berlim. Nova visão que não abandona a prioridade das questões sociais, mas pragmaticamente aceita teses e soluções até aqui tidas como reacionárias, mas que funcionam.