O governo Lula tentará levar à votação, pela segunda vez, na Câmara dos Deputados, sua proposta de um salário mínimo de R$ 260,00. Foi vitorioso na primeira apreciação, mas quando a medida provisória que estabeleceu o mínimo foi apreciada pelo Senado, acabou derrotado. Isso evidenciou a fragilidade da base parlamentar do governo, um saco de gatos nas duas Casas e extremamente frágil no Senado Federal. Foi aprovada a proposta do PFL, oposição tida como de direita, fixando um mínimo de R$ 275,00. Assim, ficou rejeitada a de Lula, de R$ 260,00, com uma derradeira chance de ser retomada na Câmara.

Analistas entendiam que, derrotado no Senado, o governo não voltaria à carga, pois estamos num ano eleitoral e insistir em um mínimo menor é perder prestígio e votos. E dar panos para a manga para a oposição, que usará o episódio para colocar os trabalhadores contra o situacionismo nas eleições municipais que se aproximam. Mas o governo superestima sua força e diz-se disposto a, ainda nesta semana, procurar impor na Câmara os R$ 260,00.

Vai mais longe. O ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, depois de uma reunião do PT, disse que o seu partido precisa do apoio da “direita” e agradece o que receber. Contraditoriamente, nessa mesma reunião petistas pregaram que é preciso combater a oposição, não só para aprovar o salário mínimo rejeitado, mas para ganhar as eleições municipais.

A contradição não é só política e legislativa. Não se resume em insistir numa medida antipática de remuneração ínfima para os trabalhadores num ano eleitoral e revelar que aceita de bom grado o apoio da “direita” que venceu com o salário mínimo de R$ 275,00 no Senado. É também visível no campo econômico, pois a política que vem sendo seguida pelo governo, que chamaríamos de fiscal e de caixa, mais se preocupa em encher as burras oficiais que disponibilizar recursos nas mãos da população e das empresas, para promover o desenvolvimento econômico.

O IBGE, na sua última Pesquisa Industrial Mensal, referente a abril, mostra que o Brasil se ressente do desempenho da produção de bens de consumo, semi e não-duráveis, como alimentos, bebidas, roupas e calçados. E mostra que o mercado em queda resulta da massa salarial reduzida. O brasileiro ganhando pouco e cada vez menos, em virtude do achatamento salarial, cada vez consome menos e desestimula o crescimento econômico. Também comprará menos se o salário mínimo for o que Lula e o governo desejam, ou seja, apenas R$ 260,00. Menos também porque o governo reluta em atualizar o Imposto de Renda. Ao longo dos anos, a inflação foi corroendo os salários e hoje a correção, para ser justa, teria de superar os 50%. Mais dinheiro para o governo e menos para a sociedade, que compra menos e investe quase nada. A conseqüência mais penosa é o desemprego. E desempregado nada consome. Pelo contrário, consome-se em suas angústias, engrossando a grita contra a chamada política econômica do governo.

Assim, é contraditório falar em aliança com a direita para aprovar o mínimo de R$ 260,00 e combate à direita e aos conservadores para ganhar as eleições. O eleitorado não está esperando agrados, mas não aceitará de bom grado pauladas, como um mínimo irrisório, um IR não recomposto e uma carga tributária elevadíssima. É a receita para perder as eleições.