Quando Lula prometeu dobrar o valor do salário mínimo em quatro anos, não fez condicionamento algum. Ele se referia a essa vergonha que aí estava. E que continua. O PIB – Produto Interno Bruto em baixa, agora invocado pelo Planalto, não entrava no discurso. Antes, se atinha à letra fria e sempre sábia da Constituição que prescreve uma remuneração compatível com o financiamento das necessidades básicas dos trabalhadores. Melhor, dos cidadãos que trabalham.

Segundo um cálculo do Dieese, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos, criado em 1955 pelo movimento sindical brasileiro para prestar assessoria técnica aos sindicatos que não abrem mão da contribuição sindical obrigatória, esse valor deveria estar bem acima de mil reais. Mensais. Lula, de olho no lugar de Fernando Henrique Cardoso, achava uma barbada apenas dobrar. Ficaria ainda devendo para a imposição da Carta Magna, mas daria um basta à imbecilidade neoliberal de gente subserviente a Washington e arredores…

Agora que Lula colocou a cara para queimar e, investido da responsabilidade, abandonou o discurso fácil, fez do salário mínimo deste ano da graça de 2004 sua obra-prima. Colherá, certamente, frutos amargos na próxima temporada eleitoral. No meio da gente simples, já o chamam de traidor. A Maria do Socorro Moura de Oliveira, da feira agrícola de Ribeirão Preto, é o novo símbolo nacional desde sexta-feira passada. Nos ambientes mais sofisticados, o palavreado assume rebuscadas formas de qualificar alguém que está sendo obrigado a engolir tudo o que antes dissera. Já tem ministro admitindo que a promessa de ontem será o calote de amanhã. Está na cara que haverá calote. Um a um, os partidos políticos (incluindo o próprio PT da estrela no chão) procuram as palavras mais fortes para traduzir indignação, espanto, desilusão e até ofensa.

Nosso esforço, corrige o ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, é para aumentar o valor real do salário mínimo. Não para dobrar. Dias atrás, o ministro Guido Mantega também procurava mudar o foco da cobrança, alegando que Lula nunca prometera a dobra e, sim, a melhora. Bobagem. Uma nova mentira não fará desaparecer a primeira. Além do que, um aumento de 1,21% sobre a inflação de medição discutível é mesma coisa que nada. Se pelo menos existissem empregos a mancheias! Mas brabo mesmo é não ter salário nem emprego. Não existe “espetáculo” pior.

Aliás, existe. É este que os políticos de sempre começam a ensaiar no Congresso, para onde vão de vez em quando. Um a um, desfilam suas lamúrias e tentam consolar os eleitores. Prometem que a coisa não vai ficar assim. Batem-se por cinco, dez reais a mais. Outros vão além e sugerem possuir fórmulas mirabolantes para encontrar recursos que garantam um mínimo de, pelo menos, 300 reais mensais – já uma vergonha, sublinham de cara séria! Esse deprimente espetáculo, que começou nas tribunas do Senado e da Câmara, se espraia pelos microfones de rádios e televisões do resto do País, ribombando nas manifestações ruidosas de um 1.º de Maio apoteótico. Enquanto Lula, acuado, pedia otimismo, destilavam pessimismo e desesperanças no velho estilo do PT de antes.

Não sabemos quem comete a maior demagogia. Se o PT no Planalto fazendo de conta que governa apesar de todas as dificuldades, ou se os outros fazendo oposição ao PT-governo que se esgoela por tentar demonstrar que “não é o governo que faz a massa salarial na economia”. Nesse falso confronto nacional, em que se cobra até o avião novo que Lula comprou para viajar mais tranqüilo mundo afora em sua pregação por um Fome Zero global, o embate agora será, de um lado o Planalto tentando manter o valor de R$ 260 que estudou durante mais de dois meses e, de outro, políticos em campanha no Congresso fazendo alarido para desgastar o governo, mais que subir o valor do mínimo. Como o PT de antes. Mas será que não aprendem? Ou pensam que haverão de enganar o povo outra vez?