A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de cortar a taxa básica de juros em 0,5 ponto porcentual surpreendeu o mercado financeiro pela primeira vez desde setembro de 2005. A grande maioria dos analistas de mercado financeiro era de corte de 0,25 ponto porcentual. A decisão dos integrantes do comitê foi unânime.

Segundo analistas, o corte mais ousado pode amenizar um pouco a notícia ruim sobre o desempenho da economia no segundo trimestre do ano, que será divulgada nesta quinta-feira (31) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A reunião de ontem também foi marcada pela mudança no texto que explica a decisão dos dirigentes. No documento, eles afirmam que "avaliando o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação, o Copom decidiu por unanimidade reduzir a taxa Selic para 14,25% ao ano, sem viés".

Foi oi a 10ª redução consecutiva dos juros, iniciada em setembro de 2005, quando a taxa recuou de 19,75% para 19,5%. Desde então, a Selic caiu 5,5 ponto porcentual, num dos mais longos ciclos de queda desde a criação do Comitê. Em 1999, houve dez quedas seguidas, mas na ocasião houve reuniões extraordinárias.

A taxa de 14,25% é a menor desde a criação do Copom em junho de 1996. Apesar disso, o Brasil continua na liderança dos maiores juros reais (Selic menos inflação projetada para os próximos 12 meses) do mundo. Segundo levantamento da consultoria UPTrend, a taxa real brasileira, com o corte de ontem, caiu para 9,4% ao ano – quase o dobro do segundo lugar, a Turquia, com 5,1%.

Na avaliação do economista da Modal Asset, Alexandre Póvoa, o resultado foi uma surpresa positiva e indica que o BC está interpretando a queda da inflação como estrutural, não conjuntural.

Mas ele alerta que o comunicado, ao contrário das últimas reuniões, não sinalizou se o processo de queda da Selic vá continuar ou se parou. A pista virá com a ata do Copom que sai semana que vem, diz ele. O próximo encontro será nos dias 17 e 18 de outubro, depois do primeiro turno das eleições.

Para o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega, sócio da Tendências Consultoria Integrada, o corte de 0,50 ponto foi possível porque a situação melhorou desde a última reunião. Segundo ele, os riscos inflacionários nos EUA diminuíram, assim como no mercado interno. "Além disso, a economia está com desempenho menor que o previsto", diz Mailson, que aposta numa Selic de 13,75% em dezembro.