Brasília (AE) – As ligações do ex-ministro dos Transportes Anderson Adauto com o esquema do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza são mais profundas do que o político – hoje prefeito de Uberaba, no Triângulo Mineiro – admitiu. Hoje durante o depoimento do ex-chefe de Gabinete do ministério José Luiz Alves à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Mensalão os parlamentares descobriram que, a cada saque na conta de Valério no Banco Rural, alguém da agência de publicidade SMP&B ligava para o assessor.

Foram 17 saques, de acordo com a lista entregue pelo empresário à CPI. E 17 telefonemas para o número de Alves no ministério, de acordo com os dados do sigilo telefônico, todos na véspera ou próximos dos dias dos saques.

Não que Alves tenha admitido alguma coisa. Mesmo depondo apenas como testemunha, o ex-chefe de Gabinete e hoje secretário de Governo de Adauto em Uberaba, chegou com uma declaração em que admitia apenas cinco idas à agência do Rural em Brasília e quatro saques, somando R$ 200 mil. Na lista de Valério, o dinheiro para Adauto chega a R$ 1 milhão.

A CPI tem em mãos os registros de entradas no Banco Rural que mostram Alves na agência sete vezes, em vez de cinco. Dos outros dez saques não há registro de que tenha sido feito por ele. Mas havia outra pessoa autorizada a retirar o dinheiro para Adauto: Edson Pereira de Almeida, irmão do ministro, como os deputados só descobriram ao inquirir Alves.

"Parte desse dinheiro pode não ter sido retirado por ele mesmo. Há outro sacador autorizado, mas não sabíamos até agora quem era esse Edson. Não tem número de telefone; o nome é muito diferente", disse a deputada Zulaiê Cobra (PSDB-SP).

Alves confirmou, no entanto, que Adauto ligou para o ex-secretário nacional de Finanças e Planejamento do PT Delúbio Soares com o objetivo de pedir ajuda financeira. Supostamente, para ajudá-lo a pagar dívidas que ficaram da campanha para deputado em 2002. "Algum tempo depois, o sr. Delúbio Soares disse-lhe que o sr. Marcos Valério resolveria o problema", contou Alves. Foi aí que o ex-chefe de Gabinete foi instruído pelo ministro a ir até o Banco Rural. Nas vezes em que admitiu ter sacado o dinheiro, Alves disse que recebeu em espécie e entregou ao ministro no gabinete, em mãos. "Apenas uma vez fui à casa dele entregar", disse.

Alves contou também que Adauto tinha um relacionamento de tempos com Valério. O empresário fez o layout da campanha de Adauto a deputado em 2002. Depois disso, contou Alves, Valério foi várias vezes ao ministério, assim como Delúbio. "Nunca participei de nenhuma reunião, mas o sr. Delúbio esteve várias vezes no ministério", afirmou.