Brasília (AE) – A CPI dos Bingos levantou indícios de que integrantes do PT e do governo Lula montaram uma rede de extorsão de empresas que atuou fortemente na renovação do contrato entre a multinacional Gtech e a Caixa Econômica Federal para operação da rede de loterias do País. Firmado em 8 de abril de 2003, quando a Caixa Econômica tinha a tecnologia e a decisão de diretoria para assumir o serviço, o contrato permitiu um lucro de R$ 650 milhões à Gtech em dois anos, o equivalente a quase R$ 1 milhão ao dia.

Para a CPI, a Gtech tem como prática cooptar servidores em funções estratégicas, com poder de influência na máquina estatal. A empresa não teve dificuldade em encontrar tais colaboradores e centrou seus esforços em Waldomiro Diniz, na época subchefe de Assuntos Parlamentares da Casa Civil, então comandada pelo ministro José Dirceu. Outro alvo foi Rogério Buratti, ex-militante do PT e secretário de Governo de Ribeirão Preto em 1993, quando o prefeito era o atual ministro da Fazenda Antonio Palocci. Pelos serviços, a Gtech teria pago uma propina entre R$ 5 milhões e R$ 6 milhões.

Os indícios foram levantados durante acareação entre os principais protagonistas do episódio. Além de Waldomiro Diniz e Rogério Buratti, também estavam na CPI o empresário de jogos Carlos Ramos, o Carlinhos Cachoeira, o diretor da Gtech Marcelo Rovai e advogado Enrico Giannelli, ex-consultor jurídico da Gtech. A acareação começou às 15horas, entrou pela noite e foi palco de momentos tensos, quase chegando à agressão entre os desafetos.

Os cinco foram convocados para esclarecer as contradições em depoimentos prestados anteriormente à Polícia Federal e à própria CPI. O diretor da Gtech alegou que a empresa foi vítima de extorsão, mas Buratti e Waldomiro Diniz asseguraram que a multinacional os procurou para que interferissem na renovação do contrato – que fora assinado pela primeira vez em 1997 e vinha dando um prejuízo aos cofres públicos estimado em mais de R$ 200 milhões anuais.

A versão de Waldomiro e Buratti foi reforçada com o depoimento do ex-consultor Gianelli, que trabalhou para a Gtech e agora acusa a empresa de ter montado um organograma do setor público para fins de tráfico de influência. Ele informou ainda que a Gtech montou uma rede de cooptação de autoridades para obter vantagem em seus contratos.

O esquema, segundo Gianelli, foi fortemente acionado nas negociações, entre fevereiro e abril de 2003, para renovação do contrato com a Caixa.

Segundo Rovai, havia duas turmas ligadas ao governo e ao PT querendo se aproveitar do contrato para levar vantagem financeira. Uma delas era comandada por Waldomiro e se ligava a Dirceu. A outra era coordenada por Buratti e tinha conexões com Palocci. A Gtech jogou com os dois grupos.

Buratti, por sua vez, disse que na primeira investida da empresa, a oferta era de suborno pessoal. Rovai o acusou de cobrar R$ 6 milhões pelo trabalho de lobista. O diretor da Gtech afirmou ainda que a empresa não pagou a propina porque havia conseguido negociar com sucesso a renovação do contrato diretamente com o presidente da Caixa, Jorge Mattoso.