Com a rejeição da PEC – proposta de emenda constitucional – que autorizava a prorrogação da cobrança da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) até 2011, o governo dá tratos à bola para elencar as medidas factíveis de espargir um pouco de luz num ambiente, que, se nunca foi exemplo de convivência civilizada, desde a fatídica madrugada de quarta-feira entrou em perniciosa ebulição.

A somatória de arrogância, auto-suficiência e trato amadorista no que se denominou afetadamente de articulação institucional lançou o governo no desespero e, pior, no descrédito da população.

Como um boxeador surpreendido por um potente direto na ponta do queixo, o governo foi à lona e até agora não conseguiu safar-se do atordoamento decorrente do revés dos 45 a 34 votos que despacharam a CPMF para as trevas do esquecimento.

Para continuar cobrando o imposto do cheque, o governo carecia de 49 votos do total de 81 senadores, descontado o voto do presidente, que está liberado de acordo com o regimento interno. Assim sendo, a derrota ficou ainda mais perversa após a reiteração do estrago causado pelos seis votos contrários à PEC, dados por senadores integrantes da base governista, de fato, uma coalizão mergulhada em desabrida crise de identidade.

A insaciável indústria do boato, mecanismo paralelo aos centros de poder encravados em Brasília desde os tempos da fundação, já espalha rumores da iminente exoneração do ministro Guido Mantega, não se sabe se a pedido ou por decisão pessoal do presidente da República. O ministro, por enquanto, faz que não é da sua conta e só aceita conversar sobre o crescimento do PIB.

Como o ressentimento é difícil de ocultar, ainda mais quando a queda é tão espalhafatosa, Mantega amarrou a cara e mandou dizer que suspendeu a ampliação da política industrial e, de quebra, ordenou o congelamento da ansiada desoneração da folha de pagamentos das empresas. Ambas as providências haviam sido ventiladas pelo governo no esforço baldado de convencer os senadores a aprovar a CPMF.

Os empresários estão tranqüilos e esperam que o governo não se afunde na perplexidade e perca de vista o objetivo essencial de remover os entulhos que dificultam a expansão da economia. Desonerar a folha, dizem os empregadores, é fator decisivo para aumentar investimentos, gerar empregos, renda e consumo.