Conta a crônica que o presidente Lula anda inconformado. Não consegue olhar o resultado da última pesquisa que aponta queda vertiginosa em seu bem mais valioso – a popularidade. Tal preocupação é tamanha que já transborda para seus discursos e contamina seu humor pessoal. Em São Paulo, na última segunda-feira, avisou à nação que não tem os poderes de Deus para fazer os milagres que alguns acham que ele deve fazer. No mesmo discurso, Lula ensaiou uma parte do argumento já usado por seu baleado ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, ao insinuar que a crise tem a ver com as próximas eleições.

Lula não precisa fazer milagres. E ninguém espera dele obra divina. Basta que cumpra parte (já nem se pede tudo) do que prometeu em palanque, durante a última campanha eleitoral. À sua volta, todos pedem isso, a começar pelo seu próprio partido, incomodado (por causa das eleições?) com a demora na partida do motor de arranque da máquina governamental. O espetáculo do crescimento, promessa feita e repetida já na condição de presidente, está deixando espectadores incomodados diante da bilheteria do teatro da realidade: o ingresso está pago, mas onde o espetáculo?

O problema do governo é o próprio governo. Ou, melhor, como quer o sempre maneiro governador Aécio Neves, das Minas Gerais, o PT. Sim, se há alguém em quem Lula não pode colocar a culpa é na oposição. Esta sempre fez barulho muito menor e muito menor estrago que aquele ocasionado pelo próprio governo e seus aliados. O MST é um deles – ou a nação já se esqueceu dos estreitos vínculos que sempre manteve o movimento dos sem-terra com o Partido dos Trabalhadores? Outro brutal acidente aconteceu no caminho entre a Presidência e a Casa Civil: o ex-assessor parlamentar Waldomiro Diniz, subordinado direto do “capitão do time” José Dirceu, o auto-intitulado “in-com-pe-ten-te”, é o responsável principal da maior pedra no sapato de Lula.

Não convém aqui lembrar outros episódios nascidos dentro do governo que desgastam credibilidade e queimam esperanças. Alguns deles, como as rezas internacionais da ex-ministra Benedita da Silva, subsidiadas pelo erário público, já foram até esquecidos. Outros, como a imagem presidencial com o boné do MST, já foram digeridos. Outros, ainda, como a expulsão dos radicais do partido que pediam mudanças no rumo da economia, foram superados pela voz do próprio partido pedindo a mesma coisa que pediam os expulsos. Também não lembremos os fiascos do Fome Zero, um programa de caráter mais assistencialista que social, lançado e relançado sem sucesso. Deixemos de lado também a escalada tributária, simbolizada na superalíquota da Cofins, decretada por medida provisória bem no meio dos debates da reforma tributária. Nem nos ocupemos desse recente fiasco na área da comunicação institucional do governo que, já atropelado pelo Waldogate, resolveu gastar oito milhões de reais numa campanha que acaba de ser retirada para ser refeita…

Meditemos um pouquinho apenas sobre o que acaba de dizer em Lima o ministro Guido Mantega, do Planejamento, durante a 45.ª Assembléia Anual de Governadores do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Para o assessor de Lula, a quem o companheiro ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, chamou de “vagabundo”, está havendo um terrível equívoco quando cobram os dez milhões de empregos prometidos durante a campanha. Lula nunca prometeu isso, assevera Mantega, mas apenas teria dito que o Brasil ia precisar criar dez milhões de empregos – o que não é a mesma coisa. Ora, que não realize o prometido (por não ter o poder das divindades, ou simplesmente por não conseguir realizar) é uma coisa. Mas que pretenda, um ano e três meses depois, distorcer o sentido de promessas até aqui tidas e admitidas como verdadeiras, eis outra obra que em nada contribui para aumentar a popularidade presidencial.

Piada reciclada que circula na internet precisa ser levada a Lula como incentivo à tarefa de não buscar culpados só fora de casa. Diz que desde o momento em que o Criador se viu forçado a restringir uma das três virtudes concedidas aos brasileiros (porque aos demais humanos dera apenas duas), petista honesto não pode ser inteligente; quem é petista e inteligente não pode ser honesto; e quem é inteligente e honesto não pode ser petista. Que nenhum petista de carteirinha leve isso a sério. É piada, até de mau gosto. Mas os que estão no governo, pelo menos, que cuidem de governar.