Os cidadãos sérios deste País – e eles existem! – apontam como um cancro na nossa sociedade a perda da capacidade de se indignar. Uma criança pedinte; um homem prostrado na rua, embriagado, doente ou com fome; famílias inteiras, sempre com muitas crianças, amontoadas em barracos de favelas, em meio à sujeira; a violência entre gangues ou mesmo da polícia contra cidadãos, não mais nos indignam. Nem ao cidadão nem ao corpo social que vê tudo isto, à força da repetição, como males sem remédio. E vive-se na base de cada um para si, o governo contra a maioria e a favor de poucos. E Deus… é melhor não pronunciar seu santo nome em vão.

Como conseqüência dessa incapacidade de indignação, construída ao longo de muitos anos em que assistimos tantos males não remediados que acabaram se vulgarizando, cresceu a cultura da malandragem. Aqueles que podem se afastar da sociedade tísica e enclausurar-se num segmento privilegiado, protegidos por uma redoma de prestígio social, político ou de riqueza, o fazem. E ignoram a miséria que os cerca. E os que não conseguem posições privilegiadas, adquirem também a cultura da malandragem. Levar vantagem em tudo. Certo?, como dizia uma mensagem publicitária muito conhecida.

Essa cultura da malandragem é adubada pela sonegação, por parte dos governos e da própria sociedade, daquilo que seria de sua obrigação oferecer ao cidadão e ao povo como um todo. Se me negam aquilo a que tenho direito e ainda me cobram por isso (vejam a carga tributária), sempre que eu puder vou tapear também! É comum tal pensamento entre os cidadãos e, à força da repetição e das inegáveis justificativas, virou uma cultura: a cultura da malandragem.

Por isso, espantam-se todos quando alguém não se peja de ser honesto e manifesta essa honestidade em algum ato decente, porém raro. Foi o que aconteceu em Maringá, onde a dona de casa Ione Pereira Machado, de 48 anos, passou a ser alvo de chacotas de vizinhos e outros moradores da cidade porque devolveu o cartão do programa Bolsa Família, benefício de apenas R$ 50,00 mensais a que tinha direito, tão logo seu marido, Anquilino Machado, conseguiu um emprego de vigia noturno. Certamente, como vigia noturno, Anquilino não está ganhando nenhuma fortuna e os R$ 50,00 seriam um reforço considerável no parco orçamento familiar.

Mas, "quando decidimos devolver o cartão, fizemos porque achamos que não era certo ficar com os R$ 50,00", diz Ione. Não imaginavam a repercussão do seu ato. "Muitas pessoas acham que somos bobos", diz Anquilino. Mas defende o gesto da esposa, acrescentando que conhece muitas famílias que vivem com pouco mais do que os R$ 50,00. Assim, esse dinheiro não dá para muita coisa, mas pode salvar alguma outra família da miséria absoluta.

O presidente Lula, tomando conhecimento do ato de honestidade da família de Maringá, cumprimentou-a por seu gesto.

Queremos fazer o mesmo, embora entendamos que ser honesto é a obrigação de todo cidadão e a desonestidade, mesmo já consagrada e tendo se transformado em verdadeira cultura, jamais deveria ser tolerada. Nem a honestidade precisa de foguetes, pois precisamos chegar a dias em que ela seja a regra; e a malandragem, a exceção.

Mas isso depende da organização mais justa da sociedade e aí o governo entra como agente indispensável. Enquanto ele, pela sonegação de direitos dos cidadãos, for algoz e não benfeitor, estará adubando a cultura da desonestidade.